Arábia Saudita, o “Estado Carrasco” mais amado da comunidade internacional

Há três anos, Raif Badawi, um escritor e ativista saudita de 31 anos, casado e pai de três filhos foi preso na Arábia Saudita por praticar um crime contra o islã. Badawi cometeu o perigoso ato de incentivar o debate sobre questões religiosas e políticas através do seu blog, utilizando o pensamento crítico tão cultuado no Ocidente – exceto quando se trata de aplicá-lo a temas ligados à religião da paz – esquecendo que, a referida “perversão” é rechaçada e punida de forma violenta no mundo islâmico.

Os crimes de “insulto ao islã por meios eletrônicos” – leia-se, criticar o islã – e cometer “desobediência” resultaram numa “pena branda” de 10 anos de prisão e mil chicotadas, além da condenação ao pagamento de indenização de 1 milhão de riais sauditas (cerca de US$ 267.000). Ademais, a sentença prolatada exigiu que o castigo corporal fosse aplicado em frente a uma mesquita logo após as rezas matinais para lembrar ao blogueiro a sua violação contra os preceitos imutáveis da religião que dirige todas as ações governamentais da Arábia Saudita. O “criminoso” foi açoitado “rodeado por uma multidão entusiasmada que entoava incessantemente Allahu Akbar (Deus é grande)” durante as chicotadas.

Na verdade, o ativista realmente teve sua pena amenizada, uma vez que, o sheikh Abdulrahman al-Barrak, um respeitado clérigo saudita,emitiu uma “fatwa” (decreto islâmico) declarando que Badawi era um “descrente” e um “apóstata”, pois o blogueiro cometeu o despautério de afirmar que “muçulmanos, judeus, cristãos e ateístas são todos iguais”. De sorte que, a não aplicação da pena de morte deve ter sido considerada um ato de benevolência.

Parte da sentença, em forma de 50 chicotadas, foi cumprida exatamente na mesma sexta-feira em que quatro judeus foram covardemente executados em uma mercearia kosher de Paris pelo muçulmano Amedi Coulibaly, que era mais uma das muitas “crias” da doutrina salafista que a Arábia Saudita estimula e financia pelo mundo inteiro com as suas escolas islâmicas extremistas. O terrorista muçulmano francês aprendeu que “judeus não são iguais aos muçulmanos” e, por isso, devem ser mortos implacavelmente!

Entrementes, a gravidade das lesões provocadas no açoitamento público em Badawi impossibilitou a continuidade das chicotadas na sexta-feira posterior, e iniciou-se uma campanha internacional contra a efetivação da pena desumana.

Vale lembrar que, em 07 de fevereiro, o Parlamento Europeu elaborou uma extensa proposta de resolução comum que deveria ser enviada a diversos organismos, inclusive, ao Secretário-Geral das Nações Unidas. No documento, dentre várias exortações e requerimentos, a nobre entidade salientou que “insta as autoridades sauditas a respeitarem a proibição da tortura, consagrada sobretudo na Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes, que a Arábia Saudita assinou e ratificou”.

No entanto, em 7 de junho, o Supremo Tribunal do reino confirmou uma sentença de 10 anos e 1.000 chicotadas contra Badawi, e numa atitude ousada, ainda em 29 de maio, a embaixada saudita em Bruxelas enviou um comunicado oficial sobre a questão através do Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita aos membros do Parlamento Europeu. A declaração condenou qualquer “interferência em seus assuntos internos”, evocando a sua soberania como fundamento máximo para impor a flagelação sobre o seu prisioneiro.

Ora, o frágil Parlamento Europeu não compreendeu que “tortura” é um conceito eminentemente ocidental, e não islâmico, e como todos sabem, o mundo muçulmano só se apropria de conceitos ocidentais segundo seus próprios interesses, haja vista a utilização da “soberania” com elemento de defesa para violar os direitos humanos. Dessa forma, pouco importa se a Arábia Saudita assinou a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura!

Enfim, o reino saudita livrou-se de qualquer reprimenda da ONU e da comunidade internacional e em março, o ministro dos Assuntos Exteriores da Arábia Saudita expressou “surpresa e desapontamento” com a campanha internacional exigindo a libertação de Raif Badawi, verberando que “o reino, sem equívocos, rejeita qualquer agressão sob o pretexto de direitos humanos”.

A única dúvida nesse “teatro de horrores” é saber se realmente a proibição de tortura é uma “agressão à soberania saudita” ou a agressão real seria “contrariar” o reino que tem o quarto maior orçamento do mundo para Forças Armadas, sendo consideráveis valores gastos com a compra de armas dos EUA e Europa.

Com essa “indumentária financeira” tão atraente para a fragorosa indústria armamentista, o Estado integrante do Conselho de Direitos Humanos da ONU pode desfrutar da impunidade para com seus atos de tortura e repressão ao ativismo por direitos humanos e liberdade de expressão, posto que, a guardiã de Meca desfruta da honrosa posição de aliada do Ocidente no combate ao terror global.

O ativista Reaif Badawi enfrentou a monarquia totalitária, mas hoje, se vê obrigado a amargar o cumprimento da pena, que possivelmente o levará a morte, porém, a Arábia Saudita continuará com o seu secto real comandando a ONU e comunidade internacional, visto que, o sofrimento de Badawi será estrategicamente apagado das redes virtuais, pois, como afirma a wikileaks, “a mídia não é controlada por judeus, mas pela Arábia Saudita.

E se há alguma dúvida acerca da soberania midiática do “reino da tortura”, basta responder a seguinte indagação: houve alguma mobilização mundial de protesto contra a centésima vítima de decapitação por pena de morte  no território do maior aliado ocidental no Golfo Pérsico?

De janeiro até 5 julho, cem prisioneiros foram decapitados e a mídia não se pronunciou, uma vez que, numa “perspectiva saudita de sofrimento”, a desgraça maior do Oriente Médio está localizada no território de Gaza. Logo, Badawi é apenas um “apóstata” que terá seu fim sublimado pelo ofuscante fascínio dos petrodólares da mais soberana monarquia dentre os “soberanos súditos Estados ocidentais”.

Andréa Fernandes

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