Milhares protestam após atentados na capital turca

ANCARA — Milhares de pessoas protestam em Ancara neste domingo contra o duplo atentado que matou ao menos 95 em uma marcha pela paz no dia anterior, cobrando que o governo assuma a responsabilidade pelos ataques em frente à principal estação de trem da capital turca. Os manifestantes expressaram indignação pela falta de segurança na marcha de sábado que foi alvo de duas explosões, no que está sendo considerado o maior ataque na História do país. O número de mortos varia, com o Partido da Democracia dos Povos (HDP), que organizou o evento, apontando 128 vítimas fatais, das quais 120 teriam sido identificadas. As investigações se concentram no Estado Islâmico (EI), segundo fontes de segurança citadas por vários meios de comunicação.

Imagem retirada de vídeo mostra grupo de jovens cantando de mãos no momento da primeira explosão em Ancara. Duplo atentado é visto como o maior da História do país

Convocados por sindicatos, ONGs, partidos de esquerda e pró-curdos, os manifestantes lotaram a praça Sihhiye, no centro da capital, perto de onde as explosões ocorreram. A multidão gritou palavras de ordem contra o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, chamando-o de assassino e pedindo sua renúncia.

O principal partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP), exigiu que “demitam todos os políticos” que foram incapazes de evitar a tragédia de Ancara. Em um comunicado na manhã deste domingo, o gabiente do primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, afirmou que 160 pessoas ainda estavam sendo tratadas em hospitais, 65 delas sob cuidados intensivos.

De acordo com a agência Reuters, citando fontes de segurança da Turquia, as indicações iniciais sugerem que o Estado Islâmico foi responsável pelas explosões e o foco das investigações é o grupo radical islâmico. Uma das fontes disse que os ataques contêm semelhanças extraordinárias com um ataque suicida em julho na cidade de Suruc, perto da fronteira com a Síria, reivindicado pelo Estado Islâmico. Até o momento, nenhum grupo reivindicou a autoria do atentado.

— Este ataque foi no estilo de Suruc e todos os sinais são de que foi uma cópia daquele ataque. Indícios apontam para o Estado Islâmico — disse a fonte sob condição de anonimato. — Nós estamos completamente focados no Estado Islâmico.

INVESTIGAÇÃO

Segundo a polícia, o explosivo usado, TNT reforçado com aço, é muito semelhante ao utilizado no ataque em Suruc, que matou cerca de 30 pessoas. O irmão mais velho do homem-bomba de Suruc é um dos possíveis suspeitos, de acordo com fontes policiais citadas pelo jornal “Haber Turk”.

Informações vazadas pelos serviços secretos à imprensa turca apontam cinco militantes do EI e supostos homens-bomba que se infiltraram nas últimas semanas na Turquia a partir do território sírio. O premier reconheceu em sua entrevista coletiva no sábado que foram detidos dois supostos terroristas suicidas esta semana, um em Ancara e um em Istambul.

Em agosto, um alto funcionário do governo disse que as forças de segurança turcas tinham apreendido 35 coletes suicidas prontos para serem utilizados em ataques.

Neste domingo, o Papa Francisco disse estar profundamente triste pela morte de pessoas “indefesas” e pediu aos milhares de fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, que rezassem pelas vítimas.


Parentes choram sobre o caixão de Korkmaz Tedik, membro do conselho do Partido Trabalhista turco (EMEP), que foi morto no duplo atentado em Ancara – ADEM ALTAN / AFP
SEGURANÇA QUESTIONADA

Um turco que sobreviveu aos ataques, e que falou sob condição de anonimato, relatou que não havia policiais na mobilização de sábado, algo incomum na Turquia, onde qualquer ato político público, especialmente se é organizado pela oposição, é acompanhado de perto pelos agentes.

Em declarações à CNN-Turk, o jornalista Faruk Bildirici, que também estava no local, confirmou que não havia “medidas de segurança”, o que chamou atenção dos turcos.

O ministro do Interior, Selami Altinok, justificou a ausência de polícia no local do ataque dizendo que era o “ponto de encontro” dos grupos que iam participar do ato “Pela Paz, Trabalho e Democracia” e que a manifestação propriamente dita seria na praça de Sihhiye, a dois quilômetros da estação de trem. Questionado em uma entrevista coletiva se pretendia se demitir devido ao massacre, ele descartou alegando que “não houve nenhuma falha na segurança”.

A passeata de sábado foi convocada pela oposicionista Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores Revolucionários da Turquia, uma das três principais do país, apoiada por outras agremiações de esquerda, como HDP, pró-curdo e o terceiro maior no Parlamento. Vários deputados da legenda opositora, o social-democrata CHP, estavam na concentração.

— Depois da primeira explosão, apenas corri. Quando voltei para ajudar, havia corpos e sangue espalhado por todo lado — contou Oya Barlas, uma ativista curda.

CURDOS E GOVERNO SE ACUSAM MUTUAMENTE

O objetivo principal do protesto era pedir o fim dos combates entre as forças de segurança turcas e o grupo armado curdo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), bem como criticar o que classificam como um governo autoritário comandado pelo islamista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP). Os curdos, considerados a maior etnia sem um Estado no mundo, somam 14 milhões dentre a população turca, quase 20% do total de 76 milhões de habitantes. No sábado à noite, o PKK anunciou uma trégua até as eleições em 1º de novembro.

— Estávamos esperando um ataque em Ancara antes das eleições legislativas, mas nada com essa extensão — contou Sedat Kartal, morador da capital, referindo-se ao pleito marcado para daqui três semanas, o segundo nos últimos cinco meses. — Há muita polarização e nada mais é surpresa.

O primeiro-ministro citou alguns suspeitos no sábado: Estado Islâmico, o PKK e as organizações esquerdistas DHKP-C e MLKP. Entretanto, o líder do HDP, Selahattin Demirtas, levantou suspeitas contra o governo, entre acusações de conivência com o EI e outros movimentos jihadistas para derrubar o ditador da Síria, Bashar al-Assad:

— É um Estado assassino que se converteu numa máfia. Suas mãos têm sangue. Vocês são os maiores apoiadores de terror.

O HDP acusa o governo de estar por trás deste e de outros recentes atentados, numa tentativa de incriminar o PKK e reduzir o apoio aos movimentos e partidos pró-curdos.

http://oglobo.globo.com/mundo/milhares-protestam-apos-atentados-na-capital-turca-17749030

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