Líderes não conseguem convencer afegãos a ficarem no país

Com família no exterior, apelos de presidente contra êxodo soam vazios.

CABUL – O presidente afegão, Ashraf Ghani, subiu a um palanque há poucos dias e pediu à plateia de jovens diante de si para não participarem do grande êxodo do Afeganistão, apesar da crescente insegurança e das dificuldades econômicas. Os portões das nações ocidentais estão fechados para nós, afirmou Ghani. “Nossa dignidade, nosso respeito estão no Afeganistão.” Entretanto, para muitos afegãos, a frase soou oca. Não somente porque Ghani ganhou poder e destaque por influência do exterior, já que ele morou e trabalhou nos Estados Unidos boa parte da vida adulta. Os endereços das famílias da maioria do alto escalão do seu governo também lembra um atlas das capitais do mundo, próximas e distantes, mas nenhum deles é em Cabul.

“Como vão entender a nossa dor?”, questionou Mohamed Abas, 19, mecânico de Cabul, enquanto almoçava batata frita e pão. Após entrar no Irã, Abas foi recusado na fronteira com a Turquia em outubro enquanto tentava chegar à Noruega, onde ficou sabendo que havia empregos.

“Os filhos deles estudam, moram e se divertem na Europa e nos Estados Unidos”, disse Abas. “Eles rodam em Lexus blindados na nossa frente e nem sequer reduzem a velocidade – nós comemos pó. E se reclamamos, tomamos um soco na cara.”

A realidade de tal governo, em meio a um êxodo que aparentemente só faz crescer, torna difícil para os cidadãos afegãos aceitarem súplicas para ficar em casa.

O que também criou um dilema para doadores internacionais, principalmente os países europeus aonde a maioria dos imigrantes afegãos se dirige, apesar de essas nações injetarem bilhões de dólares em auxílio na última década para estabilizar o Afeganistão. Segundo o governo do país, quase 146 mil afegãos chegaram à Europa neste ano.

Uma pergunta não sai da cabeça de muitos europeus: como continuar investindo com confiança na estabilidade de um país em que as principais autoridades do governo não têm confiança de deixar os filhos vivendo nele? E mais: como podem justificar o recebimento de ondas de imigrantes à sua porta ao eleitorado doméstico após enviarem bilhões de dólares de ajuda ao Afeganistão nos últimos anos?

“Obviamente, nem toda ajuda aqui foi em vão; houve muito progresso”, disse Markus Potzel, embaixador alemão no Afeganistão, cujo país ampliou a presença de seus 980 soldados no país por mais um ano. “Contudo, temos de nos fazer essa pergunta.”

Os dois filhos de Ghani moram nos Estados Unidos. As famílias de seu vice-presidente residem na Turquia e no Irã. A família de Abdullah Abdullah, chefe do executivo, espécie de premiê do país, está na Índia. As famílias dos principais ministros do governo, consultores presidenciais, vice-ministros e até mesmo de diretores de agências moram no exterior.

Uma alta autoridade próxima a Ghani reconheceu que, “simbolicamente, ajudaria” se menos autoridades tivessem famílias residindo no exterior, mas explicou que aquela era a realidade de um país que, há décadas, tem uma das maiores populações de refugiados do mundo.

“Na maioria dos países em desenvolvimento, nota-se que um número interessante de integrantes do alto escalão tem dupla cidadania”, disse a autoridade, sob a condição de anonimato para evitar enfurecer os colegas. “Não se trata da melhor prática, mas o reconhecimento de uma realidade triste.”

O governo de Ghani sofre pressão das nações doadoras para aceitar de volta os afegãos que deportaram, e acordos anteriores com esses países o obrigam a fazer isso, afirmou a fonte. Contudo, ao mesmo tempo, Ghani trabalha com os governos de países como Alemanha, Suécia e Noruega para criar “atrativos” que possam manter os jovens no Afeganistão. Uma das ideias inclui pacotes de incentivo financeiro para funcionários públicos mais velhos se aposentarem, o que pode abrir 30 mil vagas nos governo para os jovens afegãos, segundo autoridades.

A Alemanha tem sido o principal destino para muitos afegãos, com quase 80 mil chegando neste ano, segundo Salahuddin Rabbani, ministro afegão de relações exteriores. Potzel, o embaixador alemão, disse que 43 por cento das pessoas cujos casos foram revistos tiveram o asilo concedido.

“Geralmente, enviaríamos os outros 57 por cento de volta, mas na prática é difícil”, afirmou Potzel. “Só mandamos de volta sete neste ano.”

“Não enviaremos aviões lotados de volta, mas garanto que no ano que vem serão mais do que sete deportados.”

A questão central do exame da Alemanha aos imigrantes é se concentrar em aceitar aqueles cujas vidas correm perigo, e em devolver as pessoas consideradas “imigrantes econômicos”. Potzel explicou que as decisões sobre os candidatos a asilo seriam tomadas caso a caso.

Todavia, ativistas dos direitos humanos afirmam que a natureza indiscriminada da violência no Afeganistão neste ano, quando civis foram atacados em áreas antes consideradas seguras, deixa poucas opções. Para os ativistas, os deportados sofreriam para se reintegrar.

“A questão da segurança como um todo no Afeganistão piorou bastante neste ano – o Talibã e outros insurgentes demonstraram que podem conquistar ou desestabilizar áreas da maior parte do país”, declarou Ahmad Shuja, pesquisador do Human Rights Watch. “Do outro lado da equação, a capacidade já limitada do governo em ajudar é reduzida pela crise crescente de deslocamento interno.”

O foco da Alemanha é dissuadir mais afegãos de deixarem seu país. A embaixada começou uma campanha de conscientização, seguindo os passos da Austrália, com grandes outdoors nas maiores cidades afegãs, para tentar reduzir os boatos sobre uma vida fácil e próspera na Alemanha.

“Deixar o Afeganistão – já pensou direito nisso?”, indaga um outdoor.

O governo afegão também começou a fazer campanhas destacando os perigos que os imigrantes encontraram nas rotas traiçoeiras para a Europa, incluindo ser vítimas de contrabandistas.

Porém, até agora essas campanhas têm tido pouco sucesso em convencer as pessoas a ficar.

Abas, o mecânico deportado, afirmou que o contrabandista lhe prometeu “um frango assado por pessoa por refeição” durante a viagem. Tudo que seu grupo recebeu foi um pão a cada quatro pessoas.

“Nunca desejaria essa viagem a ninguém”, declarou Abas. Contudo, ele também não podia ficar; os negócios caíram e ele ganha menos de US$ 3 ao dia. “Estou tentando ir novamente.”
http://oglobo.globo.com/mundo/lideres-nao-conseguem-convencer-afegaos-ficarem-no-pais-18292935

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