Artigo: Como o Estado Islâmico cria radicais

Pessoas que servem aos movimentos não reagem à opressão, mas à frustração.

Depois do ataque terrorista em San Bernardino, Califórnia, algumas pessoas começaram a refletir sobre o elemento material dessa atrocidade — as armas que foram usadas no massacre. Mas tenho a impressão de que a questão fundamental é o que podemos chamar de tecnologia da persuasão: como é que o Estado Islâmico conseguiu radicalizar um casal que vivia em Redlands, na Califórnia? Que ferramentas psicológicas o grupo possui para que sua influência chegue tão longe?

A melhor forma de entender o tema ainda é o livro “The True Believer”, escrito por Eric Hoffer em 1951. Hoffer diferenciava as organizações práticas dos movimentos de massa. A primeira, que inclui empresas e escolas, oferece oportunidades de melhoria pessoal. A preocupação central de um movimento de massa, por outro lado, é o sacrifício pessoal. O propósito de uma organização como o Estado Islâmico é levar as pessoas a negarem a si mesmas em prol de uma causa maior.

Segundo o autor, os movimentos de massa só surgem sob determinadas condições, quando uma estrutura social que costumava ser sólida passa à ruína e à desintegração.

As pessoas que servem aos movimentos de massa não estão se revoltando contra a opressão. Elas são movidas principalmente pela frustração. Suas ambições pessoais não foram realizadas. Elas perderam a fé em sua própria capacidade e em seus sonhos. Muitas vezes, são vítimas de um tédio constante. A liberdade agrava sua frustração, já que essas pessoas passam a ser as únicas culpadas pela própria sensação de mediocridade. Os fanáticos, conforme argumenta o filósofo Ernest Renan, temem a liberdade mais do que temem a perseguição.

Os movimentos de massa bem sucedidos dizem a essas pessoas que a causa de sua frustração é alheia e que a única forma de alterar sua situação pessoal é transformando o mundo de alguma forma radical.

Para incentivar essa atitude de sacrifício pessoal, a primeira coisa que os movimentos de massa bem sucedidos fazem é negar o presente. Suas doutrinas celebram um passado glorioso e descrevem um futuro utópico, embora o presente não passe de um fosso de frustrações. A era de ouro começa a parecer mais vívida e real que o presente e, dessa forma, o verdadeiro crente começa a se dissociar dos fatos do dia a dia: a casa, a cidade, até mesmo os filhos. O sacrifício pessoal é um ato irracional e, por isso, os movimentos de massa precisam levar seus seguidores a crer que a verdade só existe em outro plano e não pode ser percebida através das experiências concretas e da observação direta.

Em seguida, os movimentos de massa negam a importância do indivíduo. Todas as suas características específicas são criticadas, proibidas ou diminuídas. A identidade individual passa a ser definida pela identidade coletiva, que é fortalecida pelo ódio cultivado contra outros grupos.

Existe muita abnegação pessoal envolvida nisso. Ironicamente, a sensação do verdadeiro crente de que ele é altruísta pode levá-lo à arrogância e à crueldade. E o processo pode se tornar viciante. Se o verdadeiro crente se permitir perder a fé em seu credo, então todo o sofrimento autoimposto teria sido em vão.

Esses movimentos geram muito ódio. Mas, no limite, Hoffer argumenta que eles são gerados por uma esperança exagerada. Eles acreditam que um futuro perfeito iminente pode ser realizado, caso eles façam de tudo para destruir o presente. O fim dos tempos será glorioso e está logo ali.

Esse tipo de pensamento é fantasioso. “Na prática dos movimentos de massa”, continua Hoffer, “a fantasia tem um papel mais duradouro do que qualquer outro fator”. Os fanáticos realizam atos de violência de forma teatral, profundamente cientes de seu público. Eles se vestem com fantasias militares e alugam furgões misteriosos de vidro fumê. Atirar em um bando de pessoas inocentes e desarmadas não poderia ser mais patético, mas eles realizam isso com a dramaturgia exagerada de um filme de ação hollywoodiano.

Hoffer resume seu pensamento da seguinte forma: “Para que os homens pulem de cabeça na transformação do mundo, eles precisam estar absolutamente descontentes, embora não sejam destituídos de tudo, e precisam da sensação de que, com a ajuda de uma doutrina forte, de um líder infalível, ou de alguma nova técnica eles terão acesso a uma fonte de poder irresistível. Eles também precisam de uma noção extravagante a respeito dos prospectos e potencialidades do futuro. Por fim, os verdadeiros crentes devem ser completamente ignorantes das dificuldades envolvidas em sua empreitada. A experiência é uma limitação”.

A principal transformação dos últimos 60 e poucos anos é que as pessoas já não precisam mais se juntar a um movimento de massa. Você pode segui-lo pela internet e participar de forma remota.

Entretanto, a reação correta continua a ser a mesma. Primeiro é preciso resolver a desintegração social que alimenta esses movimentos. Em segundo lugar, é necessário oferecer causas inspiradoras positivas para substituir as causas suicidas. Por fim, os movimentos de massa são conquistados quando seu carisma é destruído, quando são derrotados pela força e são humilhados. Então, eles não podem mais oferecer esperança, inspiração ou uma saída plausível para os descontentes.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/artigo-como-estado-islamico-cria-radicais-18320910#ixzz3ujupgiBT

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