No Afeganistão, Talebã vira um inesperado ‘aliado’ contra Estado Islâmico

Talebã e Estado Islâmico são dois dos grupos militantes islâmicos mais conhecidos no mundo, e estão numa batalha sangrenta por poder.

O EI tem desafiado o domínio e monopólio do Talebã sobre a insurgência no Afeganistão, uma região habitada por diversos grupos locais e estrangeiros, e tem recebido apoio nesta campanha.

Mas o grupo tem registrado revezes significativos em seu reduto – áreas da Síria e do Iraque – devido à ofensiva aérea liderada pelos Estados Unidos.

Já o Talebã tem realizado ganhos após ter sido enfraquecido pela campanha militar no Afeganistão, liderada por forças americanas, após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Os dois grupos são conhecidos pela brutalidade e rigidez das leis em áreas sob seu controle, com decapitações, execuções e punições públicas, além do massacre de adversários.

Mas quem está ganhando a guerra dos militantes islâmicos?

Quantas forças do Talebã lutam contra o EI?

De acordo com fontes do Talebã, uma força-tarefa especial, parte do comando especial do Talebã, foi criada no início de outubro e tem mais de mil combatentes – melhor equipados e treinados do que talebãs comuns e com o único objectivo de derrotar o EI.

Equipes de operações especiais são escolhidas a dedo por suas habilidades de combate e experiência. E são ativas em todas as províncias onde o EI está presente ou tem potencial de presença – incluindo Nangarhar, Farah, Helmand e Zabul.

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Muitos insurgentes foram mortos?

Quando o Estado Islâmico planejou sua expansão sobre o Afeganistão, o Talebã ordenou silenciosamente que seus comandantes confrontassem o grupo por “todos os meios possíveis”.

Desde abril, o Talebã e o EI têm se atacado diversas vezes enquanto tentam tomar ou manter território. Células do EI, a maioria liderada por ex-comandantes do Talebã afegão ou por militantes do Paquistão e Uzbequistão, têm sido atacadas.

A maioria dos combates tem sido registrada em Nangarhar, Helmand, Farah e Zabul, e centenas de insurgentes de ambos os lados morreram. Não se tem números exatos, mas acredita-se que unidades de operações especiais do Talebã mataram dezenas de combatentes do EI desde outubro.

Já o EI também já matou dezenas de talebãs, principalmente em Nangarhar. Eles procuram por integrantes do grupo em qualquer lugar e já realizaram diversas emboscadas. O EI decapitou 10 combatentes do Talebã no início deste ano nesta região.

Por enquanto, parece que o EI foi eliminado no sul e oeste do país. Mas seus pequenos grupos de combatentes são ativos no leste do Afeganistão, especialmente nas províncias de Nangarhar e Kunar.

O EI também está se concentrando no norte do Afeganistão, onde quer estabelecer bolsões para conectar-se com outros militantes uzbeques, tajiques, chechenos e uigures, para cruzar fronteiras internacionais com facilidade.

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Quando os dois grupos começaram a lutar?

Os dois grupos declararam guerra em janeiro de 2015 após o EI ter anunciado o estabelecimento de sua filial em “Khorasan”, um nome antigo para o Afeganistão e partes do Paquistão, Irã e na Ásia Central. Foi a primeira vez que o Estado Islâmico se expandiu oficialmente para fora do mundo árabe.

O EI, conhecido como “Daesh” em árabe, foi o primeiro grande grupo militante a desafiar diretamente a autoridade do fundador do Talebã, o mulá Muhammad Omar, considerado pelo Talebã como Amir-ul Momineen (Líder dos Fiéis) do Emirado Islâmico do Afeganistão.

Os líderes da Al-Qaeda foram abrigados pelo líder talebã e eles reconheceram sua autoridade. Mas o EI se opôs vocalmente, com depoimentos e vídeos de propaganda questionando a legitimidade do Talebã e acusando-os de promover os interesses da agência de inteligência do Paquistão (ISI).

O Talebã rebateu, dizendo ao EI que parasse de “criar uma frente jihadista paralela”. Em uma carta aberta ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, de 16 de junho, o Talebã advertiu que eles deveriam “defender nossas conquistas”.

A resposta do EI veio uma semana depois, na qual combatentes receberam ordens para “não terem piedade ou compaixão” com aqueles que não se “arrependessem” e se “juntassem ao califado”.

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O quão sério é para o Talebã?

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Image captionMulá Akhtar Mansour pediu ao Talebã que se mantenha unido diante de divisões

O domínio do Talebã nunca foi tão diretamente desafiado por outros militantes. Agora, seu pior pesadelo é uma deserção em massa de seus integrantes rumo ao EI. Para evitar isso, eles têm combatido o novo inimigo em duas frentes: militarmente e ideologicamente.

O Estado Islâmico executa uma campanha agressiva de recrutamento e tem como alvo principal os comandantes militantes que foram expulsos ou marginalizados.

O grupo tem explorado, ainda, a luta interna pelo poder dentro do Talebã, que tornou-se mais visível quando o mulá Akhtar Muhammad Mansour foi nomeado como novo líder após a morte do mulá Omar, anunciada em julho.

No mês passado, uma facção separatista do Talebã foi formada, o que complicou ainda mais as coisas – mas este grupo diz ser também contra o EI.

Os recursos financeiros do EI também servem de isca. Muitos, especialmente jovens desempregados, têm sido atraídos por salários de até US$ 500 por mês.

O futuro do Estado Islâmico no Afeganistão também está estreitamente ligado à realidade do grupo no Iraque e na Síria. Mas muitos militantes estão numa fase de “esperar e ver” ou estão com muito medo de represálias severas do Talebã para tornar pública sua adesão ao EI.

Integrantes do poderoso exército do Paquistão, que é acusado de apoiar o Talebã, terão um papel importante nesta disputa.

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Estado Islâmico x Emirado Islâmico

APImage copyrightAP
Image captionEstado Islâmico anunciou criação de califado em áreas da Síria e do Iraque

Existem várias diferenças ideológicas e culturais entre os dois grupos.

O EI é uma organização pan-islâmica, tem uma agenda de jihad global sem fronteiras e visa estabelecer uma entidade política única que consiste em todos os países e territórios muçulmanos.

Os talebãs insistem que sua agenda é local, confinada apenas ao Afeganistão. O objetivo declarado é o de libertar o Afeganistão da “ocupação estrangeira” e a retirada total e imediata de todas as forças estrangeiras do país.

Ao declarar o Califado, Abu Bakar Al-Baghdadi reivindica a fidelidade de todos os muçulmanos. Um vídeo postado pelo capítulo Khorasan do EI no final de maio diz categoricamente que não pode haver dois califados no mundo e, que na existência de um, o outro precisa ser destruído.

Existem diferenças teológicas também. O Talibã é um movimento clérigo conservador leal à versão puritana da escola Hanafi do islamismo sunita, praticada pela grande maioria dos sunitas afegãos. Eles geralmente acreditam no sufismo e tendem a evitar a violência sectária anti-xiita.

O EI, adepto da ideologia da linha wahabi/salafista do islamismo sunita, mais rígida, não acredita no sufismo e considera os xiitas não-crentes.

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Os afegãos temem o Estado Islâmico?

Em alguns casos, militantes do Estado Islâmico implantaram maneiras mais duras e mais elaboradas de punir e matar seus oponentes.

Um vídeo em particular, lançado em agosto, causou horror e medo em todo o país: mostrava combatentes levando 10 pessoas vendadas, incluindo idosos, a uma encosta no bairro Achin. Eles, então, foram obrigados a sentar-se no chão sobre buracos cheios de explosivos.

Em algumas partes da província de Nangarhar, o EI disse a moradores que oferecessem esposas para combatentes recém-recrutados e proibiu o uso e venda de cigarros. Narcóticos, inclusive o cultivo de papoula de ópio, também foram banidos.

Em dezembro, o EI lançou uma estação local de rádio FM em Nangarhar como parte de sua propaganda para atrair mais recrutas. Integrantes do grupo também têm saqueado e destruído centenas de casas de oponentes ou tomaram outras que estavam desocupadas.

Enquanto a ideologia do grupo e o anúncio do califado atraiu recrutas nas regiões sul e central da Ásia, suas táticas também alienaram muitos na região.

E agora?

ReutersImage copyrightReuters
Image captionEmergência do EI representa ameaça à supremacia do Talebã

A emergência do Estado Islâmico na região representa uma ameaça à supremacia do Talebã. Mas também tem ajudado o grupo em várias formas.

Líderes do Talebã iniciaram diálogo com vários países da região, garantindo-lhes que não irão permitir que o EI ganhe espaço no Afeganistão ou que ameacem sua estabilidade.

Países como Irã, China e Rússia revisaram suas políticas antigas de não-interação com o Talebã afegão.

O Talebã luta, agora, contra dois inimigos – o Estado Islâmico e o governo afegão e seus aliados internacionais – além da facção dissidente do Talebã.

O EI está enfrentando dificuldades em se tornar uma grande força no já lotado mercado de militantes. Mas, se conseguir, o grupo poderá mudar fundamentalmente a insurgência, e marcar o fim de qualquer esperança para um processo de paz no Afeganistão. E a instabilidade na região cresceria.

A não ser que Estados regionais implementem um plano conjunto para estabilidade, os prospectos para a região parecem ruins.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151218_taleba_estado_islamico_hb

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