De estudante de Odontologia a terrorista do EI

SANLIURFA — As autoridades turcas ainda trabalham para construir o perfil de Nabli Fadli, que se explodiu no histórico e turístico bairro de Sultanahmet, no Centro de Istambul, matando dez alemães. Fadli entrou em solo turco como refugiado a partir da fronteira síria. Antes de integrar o grupo radical Estado Islâmico (EI), era um estudante “consciente, popular e quieto” de Odontologia na Universidade de Aleppo, na Síria, segundo colegas.

Fadli entrou em solo turco em meados de dezembro e inicialmente pretendia realizar o ataque durante as comemorações de Ano Novo na capital Ancara, segundo informações do BuzzFeed News. Ele se registrou como refugiado quando chegou ao país, mas não despertou a desconfiança das forças de segurança, embora um irmão de Fadli tenha se explodido no ano passado em combate contra as tropas do ditador sírio, Bashar al-Assad.

Entrevistas com conhecidos de Fadli deram pistas sobre sua trajetória de radicalização. Antes de se aliar às fileiras extremistas do EI, ele integrou um grupo rebelde antigoverno.

Um combatente da oposição que lutou ao lado de Fadli disse que o conheceu antes do começo da guerra na Síria, na cidade fronteiriça de Jarabulus. Eles eram de diferentes grupos baseados na cidade, que ajudaram a tomar o território das mãos do governo. Fadli era membro do al-Daher Baybars, cujo nome foi inspirado em um sultão do século 13.

— Nós lutamos pela nossa revolução, mas eles quiseram construir o Estado Islâmico deles — disse o rebelde, que pediu anonimato para evitar retaliação do grupo terrorista por falar à imprensa. — Nós pensamos que ele fosse um bom rapaz, mas ele é um cretino.

TREINO PARA HOMEM-BOMBA

Em 2013, o EI atacou Jarabulus para anexar a estratégica fronteira com a Turquia. Os extremistas prevaleceram, em parte porque vários membros do al-Daher Baybars, inclusive Fadli, os ajudaram a conquistar a cidade. Um recente desertor do Estado Islâmico, que chegou a trabalhar como comandante do grupo, disse que Fadli se uniu aos terroristas com colegas rebeldes e seguiu para o treinamento da organização de homens-bomba. Ele acrescentou que vários parentes do sírio também entraram no EI, e que um deles se explodiu ano passado em uma batalha contra as forças de Assad. Ele disse ainda que “muita gente do bem” se junta ao grupo pela necessidade de sustentar a família, mas que Fadli “realmente acreditava nos extremistas”.

— Ele fez isso para causar problemas aos refugiados. — disse o ex-rebelde. — Ele matou dez pessoas, mas colocou dois milhões de sírios na Turquia em risco.

As unhas dos pés de Fadli haviam sido retiradas, o que indica que o sírio foi torturado em algum momento da vida. As autoridades agora investigam se ele já foi preso pelo governo sírio ou pelas milícias curdas. Fadli também passou um tempo na Arábia Saudita, embora os investigadores não saibam quando.

Fadli entrou em solo turco em meados de dezembro. Depois que a polícia prendeu dois homens sob o pretexto de serem do Estado Islâmico e planejarem um ataque na capital, em 30 de dezembro, Fadli preferiu a discrição.

— Depois que esses suspeitos foram detidos, ele mudou de ideia. Voltou a Istambul e se explodiu dez dias depois — explicou o funcionário do governo, que também pediu anonimato por não ter autorização de falar publicamente sobre a investigação.

A deliberada atitude de deixar pistas sobre sua identidade intriga os investigadores turcos. Fadli fez check-in em hotéis com o próprio nome e se registrou como refugiado, “embora pudesse facilmente se manter anônimo no mar de refugiados que chegavam ao país com ele”, disse o funcionário.

UM UNIVERSITÁRIO QUE NÃO SE ENVOLVIA EM BRIGAS

A mãe de Fadli era uma cristã armênia que se converteu ao Islamismo para casar com o pai dele, islâmico fervoroso. Um nativo de Manbij, cidade no interior de Aleppo agora controlada pelo Estado Islâmico, disse que a família de Fadli tinha uma loja de mobiliário na cidade. Eram pessoas respeitadas pela comunidade, conhecidas por criar os filhos sob estritos dogmas religiosos. Abdullatif Fadli, pai do terrorista, disse que a família se sente envergonhada pelo ato do filho.

— Eles eram como puritanos — disse um nativo de Manbij.

Mohammed Bakir Hussein, que hoje vive na Alemanha, estudou com Fadli na Universidade de Aleppo. Descreveu o ex-colega como um estudante popular, quieto e consciente. Conhecido por raramente se envolver em brigas, Fadli não era muito religioso, mas tinha paixão por exercícios físicos. Hussein contou que, como a família era muito pobre para alugar uma casa próxima à universidade, Fadli viajava diariamente quase 50 quilômetros para ir às aulas. Ele estudava para se tornar dentista. Os dois perderam contato depois da formatura.

– Fiquei chocado quando soube o que ele fez em Istambul — disse Hussein. — Em março, ele me mandou uma mensagem no Facebook com um pseudônimo. Até o seu rosto estava diferente, sua expressão facial estava endurecida.

Foi aí que Fadli contou a Hussein que havia se juntado ao Estado Islâmico. Quando Hussein criticou o grupo, Fadli rebateu que ele “não sabia nada do EI” e convidou o ex-colega para ir à Síria “se ele quisesse aprender sobre o grupo”. Logo depois do contato, Fadli deletou a conta na rede social.

O atentado na Turquia preocupou as autoridades se os extremistas estão usando a grave crise humanitária da região para atravessar as fronteiras e armar ataques.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/de-estudante-de-odontologia-terrorista-do-ei-18480789#ixzz3xKl9Q054

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