Artigo: Estímulo à deserção pode dar fim à guerra na Síria

Insatisfação entre os alauítas e os drusos está no ponto mais alto desde 2012

Enquanto as complicadas negociações de paz avançam a passos lentíssimos em Genebra, os EUA se encontram em pequena vantagem para ajudar a agenciar um fim para o conflito que matou quase 250 mil pessoas e gerou a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Há, na verdade, uma forma bem eficiente de Washington pressionar Damasco: oferecendo dinheiro e asilo para os oficiais e autoridades que queiram desertar o regime criminoso do presidente Bashar al-Assad.

A insatisfação entre os alauítas – seita minoritária que forma a base do governo – drusos e outros grupos religiosos menores está no ponto mais alto desde 2012, quando dezenas de membros do alto escalão do Exército e da segurança deixaram o gabinete. No ano passado, a tensão, que já era grande, se intensificou após o confronto armado entre as forças com respaldo do Irã e os moradores de dois vilarejos alauítas na periferia de Hama. Em setembro, manifestantes drusos e paramilitares tomaram um prédio público na província de Sweida, no sul, e destruíram uma estátua de Hafez Assad, pai de Bashar.

Desde o início da revolução, cerca de três mil oficiais sírios abandonaram o barco, de acordo com um relatório do Exército Livre da Síria. A grande maioria agora vive em campos de refugiados na Turquia e na Jordânia, onde sobrevive à base de bicos, assistência federal dos países que os acolheram ou da oposição síria, já tão sobrecarregada. Entretanto, muitos outros podem imitá-los e só não o fizeram porque se desencorajam com o declínio gigantesco na qualidade de vida, principalmente entre os generais, que podem ajudar a forçar uma solução política. Verba e a assistência legal dos EUA poderiam mudar esse quadro.

Eu sei, em primeira mão, que os homens de Assad tirariam vantagem desse dinheiro, pois, em 2012, um deles procurou a comunidade síria em Washington. Estava pronto para mudar de lado e queria ajuda. A mensagem chegou rapidamente ao Departamento de Estado, que reagiu de maneira surpreendente: “Dê entrada no pedido de visto e siga o procedimento normal”. O candidato a desertor decidiu não fazer nada, desanimado com a perspectiva de um processo longo e intenso que, sem dúvida, revelaria sua identidade.

Caso semelhante ocorreu meses depois: um membro alauíta do alto escalão quis saber se os EUA o apoiariam se ele abandonasse o cargo – e embora estivesse preparado para convencer os colegas a se virarem contra Assad se recebesse respaldo, Washington basicamente o ignorou.

Para ser justo, o governo Obama vem se comunicando em segredo, há anos, com políticos sírios, tentando encorajá-los a mudar de lado. Esse contato, porém, se resume àqueles que têm cargos mais altos e nunca incluiu incentivos concretos, segundo ex-membros do governo com quem falei. Para a estratégia funcionar, Washington teria que oferecer uma assistência substanciosa aos integrantes das esferas governamentais inferiores.

A melhor saída seria a CIA lhes oferecer asilo temporário e dois pagamentos: uma soma polpuda assim que os desertores deixarem o governo de Assad e um salário mensal de alguns milhares de dólares. Para os sírios é muito dinheiro, mas é uma quantia insignificante comparada aos US$3 bilhões que Washington já gastou na campanha contra o Estado Islâmico.

Obviamente, a agência teria que investigar minuciosamente todos os pedidos com antecedência para confirmar que são mesmo de membros do governo sírio e não agentes duplos; em troca, os desertores teriam que estimular outros membros de suas comunidades a trocar de lado, além de se unirem à oposição na criação de um plano de transição.

Meus contatos alauítas também enfatizaram a necessidade de sigilo absoluto. Para quem ainda tem família na Síria é duplamente arriscado abandonar o regime, pois é muito provável que os entes queridos se tornem alvos das forças de segurança de Assad. De fato, o presidente tem tanto medo das deserções que colocou o serviço de inteligência para monitorar de perto os membros das Forças Armadas.

Como parte de qualquer negociação, o governo Obama devia dizer, com clareza e constância, que Assad não pode continuar no poder. O recente encontro do Secretário de Estado John Kerry com líderes da oposição em Riad, na Arábia Saudita, deixou os mesmos em dúvida, sem saber se os EUA querem que Assad saia ou não. Os alauítas também ficaram confusos no ano passado, depois que o diretor da CIA, John O. Brennan, disse que “ninguém quer ver o colapso do governo”. Essa confusão tem consequências reais na Síria.

Além disso, o prazo atual norte-americano dá a Assad pelo menos um ano e um mês para sair, sinalizando erroneamente aos prováveis desertores de que não há pressa. Mas deveria. Se Washington convencer mais políticos e oficiais a trocar de lado, poderia forçar o início do fim da guerra.

É claro que essa não seria a solução final; a intervenção militar russa na Síria convenceu muitos membros da elite alauíta de que Assad não vai cair nunca. E o Irã também demonstra inequivocadamente que apoia a minoria. Quando Assad sofreu grandes derrotas, em meados de 2015, o General Qassim Suleimani, comandante da Força Quds, unidade especial do Exército dos Guardiões da Força Islâmica, visitou cidades alauítas nas linhas de frente, em uma demonstração ostensiva de apoio. Tais atitudes fazem muita diferença entre os sírios que pensam em abandonar Assad – como também faria a ajuda vinda de Washington.

Se as minorias sírias abandonarem Assad em massa, o conflito perderia muito de seu teor sectário, tão perigoso, aumentando assim as chances de uma transição política estável. Washington deveria melhorar as condições de vida dos antigos oficiais nos campos de refugiados e oferecer incentivos concretos para quem quiser desertar. Ao fazê-lo, ajudaria os EUA a aumentar sua influência nas negociações de Genebra e, assim, acelerar a queda de Assad.

(Mohammed Alaa Ghanem é diretor das relações governamentais e assessor político do Conselho Sírio-Americano.)
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/artigo-estimulo-desercao-pode-dar-fim-guerra-na-siria-18647043#ixzz409esVAsl
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