Bashar al-Assad: “Há 80 países que apoiam os terroristas na Síria”

O próximo mês marca o quinto aniversário do início das revoltas depois das quais a Síria mergulhou numa das guerras mais sangrentas que se tem notícia na história do Oriente Médio. Ao menos 260.000 pessoas morreram, segundo a ONU. Cinco milhões de sírios procuraram refúgio no exterior. A Europa recebeu um milhão de pessoas, numa das piores crises humanitárias do último século. Tentando atravessar o Mediterrâneo, 3.000 pessoas morreram afogadas no ano passado.

Bashar al-Assad, que se tornou presidente do país depois da morte do pai no ano 2000, perdeu –logo após a eclosão do conflito– o controle de uma parte do país, quando grandes cidades como Homs e Aleppo caíram nas mãos das milícias rebeldes armadas. Recentemente, recuperou terreno nesses bastiões adversários e seu Exército lançou uma ofensiva para interromper as vias de acesso e abastecimento dos rebeldes a partir da Turquia, com a cobertura decisiva dos bombardeios da aviação russa, que começaram em setembro.

O presidente sírio, recebeu o EL PAÍS no sábado, em meio a um forte esquema de segurança em Damasco. Concedeu esta entrevista num momento em que já fala de retomar todo o território nacional e ganhar a guerra, a apenas quatro dias de uma nova reunião para a retomada das negociações de paz em Genebra e com a questão de que se o cessar-fogo anunciado pelos EUA e a Rússia em 12 de fevereiro terá efeito, depois de que na sexta-feira expirou sem sucesso o prazo que haviam definido para sua aplicação. Ele diz que sua próxima missão é perseguir oEstado Islâmico no coração de suas operações, sua autoproclamada capital em Raqa.

Assad diz aos refugiados que podem regressar ao país sem medo de represálias e acusa Governos islâmicos como os do Qatar e da Turquia de haver promovido o conflito na Síria, um cenário no qual, admite, não só se medem os interesses de um Estado, mas os de toda uma região, com a Arábia Saudita e o Irã como potências em conflito.

Pergunta. Nesta semana foi permitido o acesso de ajuda humanitária a sete áreas sitiadas. Há estimativas de que nessas áreas vivem 486.000 pessoas, muitas delas cercadas há mais de três anos. Por que a introdução dessa ajuda demorou tanto?

Resposta. Na realidade, isso não aconteceu recentemente. Está em andamento desde o início da crise. Nós não impusemos nenhum embargo sobre qualquer área na Síria. Há uma diferença entre um embargo e um exército cercando uma área específica, porque há milicianos, e isso é algo natural nesse caso de segurança ou situação militar. Mas o problema nessas áreas é que os próprios grupos armados confiscaram alimentos e outros bens básicos dos habitantes e os entregaram aos milicianos ou os venderam a preços muito elevados. Enquanto Governo, não impedimos nunca a chegada de ajuda a qualquer área, inclusive àquelas que estão sob controle do Estado Islâmico [ISIS, na sigla em inglês], como a cidade de Raqa, no norte do país, que agora está sob seu controle e antes estava sob o controle da Frente Al-Nusra [ramo local da Al-Qaeda], por quase três anos. Enviamos a essas áreas todas as pensões dos aposentados, os salários dos funcionários e as vacinas para as crianças.

P. Então continuam enviando a Raqa e a outros bastiões do ISIS a comida e os salários dos funcionários?

R. Sim. Se enviarmos salários a Raqa porque acreditamos como Governo que qualquer pessoa síria está sob nossa responsabilidade, como não vamos fazer isso em outras áreas? Isso seria contraditório. É por isso que eu disse que o envio de ajuda humanitária não é algo recente. Nós, desde o início, nunca deixamos de permitir o encaminhamento de ajudas e alimentos.

P. E continuarão chegando?

R. Claro.

P. A Rússia e os EUA anunciaram uma trégua na semana passada. O Governo sírio está disposto a respeitar o cessar-fogo e a suspensão das operações militares na Síria?

R. Claro. Além disso, anunciamos que estamos prontos para isso, mas a questão não depende unicamente de um anúncio. Depende do que fizermos no terreno. Agora, eu acredito que o conceito de cessar-fogo não é correto, porque o cessar-fogo tem lugar entre dois exércitos ou dois países em conflito. Seria melhor usar o conceito de cessação de operações. Depende principalmente de interromper o fogo, mas também de outros fatores complementares e que são mais importantes, tais como impedir que os terroristas aproveitem a suspensão das operações para melhorar suas posições. Também depende de proibir outros países, especialmente a Turquia, de enviar mais homens e armas ou qualquer tipo de apoio logístico aos terroristas. Além disso, existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU relativa a esse ponto que não foi observada. Se nós não garantirmos todos esses requisitos necessários para a suspensão das operações, tudo isso terá um efeito negativo e causará mais caos na Síria e também poderá levar à divisão de fato do país. Portanto, aplicar a cessação das operações pode ser positivo se forem atendidos os requisitos necessários.

P. Então, haverá combates, apesar do cessar-fogo, pelo menos contra alguns grupos armados?

R. Sim, certamente, como por exemplo, contra ISIS, Al Nusra e outras organizações ou grupos terroristas filiados à Al-Qaeda. Agora, a Síria e a Rússia anunciam quatro nomes: Ahrar Al-Sham e Jeish Al-Islam [Exército do Islã], além da Frente Al-Nusra e do ISIS.

P. As suas tropas já cercam Aleppo, um dos bastiões da oposição. Quando preveem retomar o controle completo dessa cidade?

R. Na verdade, já estamos no centro da cidade e grande parte dela está sob controle do Governo. A maioria dos habitantes dos subúrbios se deslocou da área controlada pelos terroristas para áreas sob controle do Governo. A questão já não é retomar o controle da cidade. Na verdade, a questão reside em bloquear as estradas entre a Turquia e os grupos terroristas. Esse é o objetivo das batalhas em Aleppo agora, e o conseguimos recentemente, fechamos as principais vias. Não há um isolamento completo entre Aleppo e a Turquia, mas torna a relação entre a Turquia e os terroristas muito mais difícil. É por essa razão que a Turquia está bombardeando os curdos recentemente.

P. O que virá depois de Aleppo? O Exército sírio está preparado para chegar a Raqa, capital autoproclamada do Estado Islâmico?

R. Em princípio, iremos para todos os lugares, mas neste momento estamos combatendo em mais de dez frentes na Síria. Estamos avançando em direção a Raqa, mas ainda estamos longe dela. Em princípio, sim, estamos indo rumo a Raqa e a outras áreas, embora o tempo dependa dos resultados dos diferentes combates atualmente em curso no país e por essa razão não é possível definir com exatidão o prazo.

P. A Rússia começou uma intensa campanha de ataques aéreos contra as principais posições da oposição. Isso foi um ponto de inflexão no conflito. Alguns consideram que a Síria tem a iniciativa agora. O senhor acredita que poderia ter conseguido isso sem ajuda externa?

R. Sem dúvida, o apoio russo e iraniano foi essencial para que o nosso Exército conseguisse esse avanço. Mas dizer que não teríamos sido capazes de alcançar essas realizações é uma pergunta hipotética. Quero dizer que ninguém pode ter uma resposta certa. Mas, certamente, nós precisamos dessa ajuda por uma razão simples: porque mais de 80 países apoiam com diferentes meios os terroristas. Alguns diretamente com dinheiro, apoio logístico, armas ou combatentes. E outros países ofereceram apoio político nos diferentes fóruns internacionais. A Síria é um país pequeno e nós podemos lutar, mas em última análise existe um apoio incondicional a esses terroristas e é óbvio que nessa situação existe a necessidade de apoio internacional. Mas volto a dizer que essa pergunta é hipotética e não posso respondê-la.

P. No que diz respeito às incursões aéreas russas, as vítimas civis não o preocupam? Na segunda-feira, um hospital foi bombardeado, onde perderam a vida 50 pessoas. Os EUA responsabilizaram a Rússia pelo incidente.

R. Outros responsáveis norte-americanos disseram que não sabiam quem havia cometido o ato, foi isso o que disseram mais tarde. Essas declarações contraditórias são algo comum nos EUA, mas ninguém tem uma prova que indique o autor dos ataques e como ocorreram. Com respeito às vítimas, esse é um problema de todas as guerras. É claro que sinto tristeza pela morte de qualquer civil inocente neste conflito, mas assim é a guerra. As guerras são ruins, não existe guerra boa, porque sempre haverá civis e sempre haverá inocentes que pagam o preço

P. Então como o senhor explica ao seu povo, aos sírios, que existe um Exército estrangeiro operando em seu território que causou vítimas civis? O senhor vê isso como algo inevitável?

R. Não, não há nenhuma evidência de que os russos tenham atacado alvos civis. Eles são muito precisos em seus ataques e sempre atacam, todos os dias, bases e posições terroristas. São os norte-americanos que assassinaram muitos civis na parte norte da Síria. Até agora não aconteceu um único incidente russo relacionado com civis, pois os russos não atacam civis e seus ataques ocorrem principalmente em áreas rurais.

P. Falando de exércitos estrangeiros, como o senhor responderá se a Turquia e a Arábia Saudita cumprirem suas ameaças de enviar tropas ao seu país sob o pretexto de combater o Estado Islâmico?

R. Como você diz, esse é o pretexto. Mas se isso acontecer, vamos tratá-los como estamos tratando os terroristas. Vamos defender o nosso país. Tal ação constitui uma agressão. Eles não têm nenhum direito de intervir na Síria, política ou militarmente. Seria uma violação da lei internacional e para nós, como cidadãos sírios, nossa única opção é lutar e defender nossa pátria.

P. A Turquia começou a bombardear as áreas sírias a partir do seu território.

R. Sim, e antes do bombardeio a Turquia enviou terroristas e, portanto, está trabalhando para alcançar o mesmo objetivo e produz o mesmo efeito com diferentes meios. A Turquia está envolvida nos acontecimentos na Síria desde o início.

P. A Arábia Saudita tentou unir a oposição em uma conferência realizada em Riad. Alguns milicianos ligados à Al-Qaeda estiveram presentes às reuniões. O senhor reconhece algum grupo da oposição armada como parte legítima com a qual pode negociar?

R. Refere-se aos grupos que combate sobre o terreno?

P. Sim.

R. Não. Dos pontos de vista legal e constitucional, todo aquele que porta armas contra o povo e contra o Governo é um terrorista, seja no seu país, no nosso país ou em qualquer outro país do mundo. Não podemos dizer que essas pessoas gozam de legitimidade. Poderão ser legítimos quando depuserem as armas e participarem do processo político. Essa é a única forma possível em qualquer país para a reconstrução ou para mudanças na lei, na constituição ou no Governo. Isso pode ser feito por meio de um processo político, e não com uma arma.

P. Então o senhor considera terroristas todos aqueles que combatem?

R. Sempre e quando não anunciarem que estão dispostos a se juntar ao processo político, sim. Só então não teremos problema com eles.

P. No que diz respeito aos combatentes, independentemente das suas intenções, se renunciarem às armas e quiserem voltar, eles poderão fazê-lo?

R. Nós vamos conceder anistia a eles, isso já aconteceu nos últimos dois anos e ultimamente se acelerou. Muitos deles depuseram as armas e alguns se juntaram às fileiras do Exército sírio e atualmente lutam contra o ISIS e recebem apoio do Exército sírio e dos caças russos.

P. Então, se como o senhor disse, aqueles que pegaram em armas contra o Governo são todos terroristas, com quem exatamente negociam em Genebra?

R. Em Genebra supunha-se que havia uma mistura. De um lado terroristas e extremistas que foram treinados na Arábia Saudita, alguns dos quais pertencem à Al-Qaeda. De outro lado são oposicionistas que vivem no exílio ou dentro da Síria. Podemos negociar com este outro lado, com sírios patriotas vinculados ao seu país, mas sem dúvida não podemos negociar com os terroristas, e por isso a conferência fracassou.

P. E os líderes e ativistas da oposição que estão presos na Síria desde antes da eclosão do conflito em 2011?

R. Todos eles saíram a muito tempo da prisão e a grande maioria deles já faz parte da oposição.

P. Todos?

R. Todos saíram antes de 2010, inclusive alguns terroristas que haviam sido condenados a vários anos de prisão, como por exemplo cinco anos, cumpriram a sentença, saíram, e quando a crise começou eles se incorporaram novamente aos grupos terroristas.

P. O senhor tem provas disso?

R. Sim. Um deles morreu recentemente, Zahran Aloush. Ele foi condenado à prisão porque tinha vínculos com a Al-Qaeda, e quando a crise começou ele formou seu próprio grupo terrorista.

P. De acordo com algumas estimativas, existem 35.000 jihadistas estrangeiros hoje na Síria, entre eles 4.000 que vieram da Europa. O Governo espanhol afirmou que cerca de 300 pessoas têm passaportes espanhóis. O que vai acontecer com eles se caírem nas mãos do Exército sírio?

R. Os espanhóis?

P. Os jihadistas estrangeiros em geral.

R. Primeiro, nós lidamos com eles como lidamos com os demais terroristas. Do ponto de vista legal não existe diferença em relação às nacionalidades, mas se pergunta sobre extraditá-los aos seus países, isso se daria através das relações institucionais dos dois países.

P. Nesse contexto, do seu ponto de vista, o que atrai esse grande número de estrangeiros à Síria?

R. Basicamente, o respaldo que recebem. Eles recebem um verdadeiro respaldo externo. A Arábia Saudita é o principal financiador desses terroristas. Ela os coloca em aviões, os envia à Turquia e de lá à Síria. O outro fator de atração está no caos, já que o caos é um terreno fértil para os terroristas. O terceiro fator é a ideologia, porque eles pertencem à Al Qaeda. Essa região, em nossa cultura religiosa, a cultura do Islã, ocupa uma posição destacada depois de Meca, Jerusalém e os demais locais sagrados. Eles acreditam que podem vir aqui para estabelecer seu estado e certamente se expandirão a outras regiões mais tarde. Mas a ideia é que eles podem vir, combater e morrer por Alá e o Islã, para eles isso é a jihad.

P. Se o Governo conseguir o controle de todo o território sírio, o senhor dará início a um processo político? O senhor estaria disposto a participar novamente de eleições?

R. O mais normal seria a formação de um Governo de unidade nacional que integre todas as correntes políticas que desejam fazer parte do mesmo. Este Governo deverá preparar as condições para a elaboração de uma nova Constituição, porque se existe a vontade de falar do futuro da Síria e debatê-lo com os diferentes partidos, e discutir a maneira de solucionar o problema interno, deve-se debater a Constituição. A Constituição certamente deve ser submetida a uma consulta popular. E em função da nova Constituição devem ser realizadas eleições antecipadas. Se o povo e os diferentes partidos querem realizar eleições, serão realizadas. Mas solucionar a parte política do problema nada tem a ver com minha opinião pessoal.

P. Como o senhor se vê daqui a 10 anos?

R. O mais importante é como vejo o meu país, porque sou parte de meu país. Consequentemente, depois de dez anos quero ter sido capaz de salvar a Síria, mas isso não significa que continuarei sendo presidente. Estou falando de minha visão sobre esse período. A Síria estará bem e eu serei a pessoa que salvou seu país. Esse é meu trabalho agora e esse é meu dever. De modo que vejo a mim mesmo em relação ao cargo e a minha pessoa como cidadão sírio.

P. Mas o senhor estará no poder depois de 10 anos?

R. Esse não é meu objetivo. Para mim não me interessa minha presença no poder. Para mim se o povo sírio quer que eu esteja no poder, então estarei e se não quiser, então não estarei. Se eu não posso ajudar meu país, então devo sair imediatamente.

P. Com sua permissão, gostaria de citar uma parte do relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre a Síria, publicado em 3 de fevereiro: “Alguns presos pelo Governo foram espancados até a morte ou morreram pelas feridas que sofreram durante a tortura”. Acrescenta que o Governo cometeu crimes de guerra.

R. Isso é semelhante ao que os catarianos fizeram há um ano, mais ou menos, quando falsificaram um relatório composto por imagens não verificadas de pessoas feridas, baseando-se em informações de fontes duvidosas. Depois enviaram o relatório às Nações Unidas. Isso é parte da manipulação midiática feita contra a Síria. Esse é o problema, o Ocidente e sua campanha midiática. São utilizadas informações não verificadas para acusar a Síria, responsabilizá-la e depois adotar medidas contra o país.

P. O mundo se emocionou com a imagem do garoto Aylan Kurdi, um refugiado sírio que tinha três anos de idade, que apareceu morto em uma praia da Turquia. Como o senhor se sentiu com essa imagem?

R. É uma das partes mais tristes do conflito sírio, que existam pessoas que abandonem seu país por diversas razões. Mas além do sentimento, a pergunta que população síria faz a nós, como funcionários públicos, é o que vamos fazer. Quais medidas foram tomadas para permitir que esses refugiados voltem ao seu país ou não precisem sair. Existem duas razões. A primeira, a que nós precisamos enfrentar, obviamente, é o terrorismo, porque os terroristas não somente ameaçam a população, mas a privam de seus meios de vida básicos. A segunda razão é o embargo aplicado contra a Síria por parte do Ocidente, especialmente os EUA, algo que causou mais dificuldades para a vida das pessoas daqui, especialmente na área de saúde. Devemos enfrentar essas razões para evitar que essa tragédia se prolongue por muito tempo.

P. O senhor mencionou que parte desses refugiados fogem do EI, mas alguns afirmam que fogem do governo e das campanhas realizadas pelo governo em algumas regiões sírias.

R. Eu poderia mostrar-lhe fatos que contradizem isso e que você poderá ver durante sua estadia na Síria, e a maioria das pessoas que vivem na área sob o controle dos terroristas, migrou à região sob o controle do governo. De modo que se querem fugir do Governo, por que pedem ajuda ao Governo? Isso não é real. Mas agora, quando existe uma batalha, tiroteio e enfrentamentos entre o Governo e os terroristas em determinadas áreas, é natural que a maioria de seus habitantes deixe essas áreas rumo a outras, mas isso não significa que fujam do Governo. Alguns dos que migraram às regiões sob o controle do Governo são familiares dos próprios combatentes rebeldes.

P. Segundo estimativas internacionais, por volta de cinco milhões de refugiados fugiram da Síria. Um milhão se dirigiu à Europa. Quais garantias essas pessoas têm para regressar com toda a liberdade e sem medo de represálias.

R. É claro que podem voltar, quero dizer que têm o direito de retornar. A menos que se trate de um terrorista e assassino, não fugiram do Governo. E alguns deles, e acredito que um grande número, são partidários do Governo e não fugiram dele, mas como eu disse, as condições de vida se deterioraram muito nos últimos cinco anos. Então com certeza, podem retornar sem que o Governo adote qualquer tipo de medidas contra eles. Queremos que as pessoas voltem à Síria.

P. O que o seu Governo pode fazer para deter o fluxo de refugiados que provocou a morte por afogamento de tantas pessoas no Mediterrâneo?

R. Como eu já disse, não depende unicamente da Síria, mas também do resto do mundo. Primeiro, a Europa deve levantar o embargo imposto sobre o povo sírio, porque na realidade não é um embargo sobre o Governo sírio, mas contra o povo sírio. Segundo, a Turquia deve deixar de enviar terroristas à Síria. Terceiro, como Governo, devemos combater os terroristas, sem hesitar, e devemos melhoras as condições de vida das pessoas com todos os meios a nosso alcance que permitam aos sírios continuar em seu país. Essa é o único caminho que pode trazer essas pessoas de volta e convencê-las a voltar ao seu país. Estou certo de que a maioria delas quer voltar à Síria.

P. Quando o senhor chegou ao poder, prometeu realizar reformas democráticas, no que foi chamado de “a primavera de Damasco”. Alguns acreditam que se o senhor tivesse realizado aquelas reformas com mais rapidez, poderia ter salvado muitas vidas. Principalmente a oposição e os EUA alegam que se o senhor tivesse abandonado o poder, muitas dessas vidas seriam salvas. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

R. A pergunta é: Qual é a relação entre o que você mencionou e o envio de dinheiro por parte do Catar, o envio de armas e o respaldo direto aos terroristas? Qual é a relação entre isso e o papel da Turquia no respaldo aos terroristas? Qual é a relação disso com a presença do EI e da Al Nusra na Síria? Então essa relação não é correta. Se querem mudar o presidente do governo, em qualquer regime, seja em seu país ou em qualquer outro país, devem fazê-lo mediante um processo político. Não podem utilizar as armas. O uso das armas não pode ser o caminho para mudar o regime e estabelecer uma democracia. Não se consegue a democracia com uma pistola e a experiência dos EUA no Iraque o demonstra. Acontece a mesma coisa no Iêmen. O presidente [Ali Abdullah] Saleh abandonou o poder pelas mesmas alegações. O que aconteceu no Iêmen? Por acaso está melhor agora? Isso não é correto e não existe nenhuma relação. Podemos conseguir a democracia mediante o diálogo e ao mesmo tempo elevando o nível da sociedade à democracia, para alcançar essa mesma democracia. A verdadeira democracia deve ser estabelecida na base da própria sociedade. Como podemos aceitar um ao outro. Essa região é um recipiente que reúne as diferentes etnias, seitas e religiões. Como eles podem aceitar-se um ao outro? Quando conseguirem fazê-lo, então poderão aceitar-se um ao outro politicamente e então a verdadeira democracia será alcançada. De modo que o tema não depende do presidente. Tentaram personalizar o problema, somente para demonstrar que é um simples problema e que se o presidente abandonar o poder, então tudo ficará bem. Ninguém pode aceitar essa visão.

P. Nestes cinco anos, vendo tantas vidas perdidas e sítios arqueológicos destruídos, o senhor teria feito alguma coisa diferente?

R. No geral, se queremos falar sobre princípios, desde o início dissemos que combateríamos o terrorismo e que iríamos estabelecer um diálogo. Abrimos o diálogo com todos, com exceção dos grupos terroristas. Ao mesmo tempo, abrimos as portas aos terroristas se quisessem depor as armas e voltar a sua vida normal, pois oferecemos a eles uma anistia geral. Então, esse é o princípio da solução integral. Agora, cinco anos depois, não posso dizer que isso tenha sido um erro, e não acredito que iremos mudar esses princípios. Implementar as medidas às vezes é diferente, porque isso depende de diversos responsáveis, diversas instituições, diversas pessoas e diversos indivíduos. Qualquer um pode cometer erros, e isso pode acontecer. Então se quiséssemos mudar algo, se pudéssemos mudar os erros cometidos em diferentes partes, o teríamos feito; isso é o que eu teria feito se pudesse voltar os ponteiros do relógio.

P. Então, do seu ponto de vista, desde o começo o senhor chamou de terroristas os protestos que ocorreram em Daraa e Damasco, como infiltrados pelas forças estrangeiras. Como o senhor enxergou aquelas primeiras manifestações contra o Governo?

R. No começo existia uma mistura de manifestantes. Primeiro, o Catar pagou a esses manifestantes para que aparecessem na Al Jazeera e depois convencer a opinião pública mundial de que o povo se levantava contra o presidente. O maior número que conseguiram foram 140.000 manifestantes em toda a Síria, o que não é nada, em quantidade, e é por isso que não estávamos preocupados. Então, infiltraram os manifestantes com militantes que dispararam contra a polícia e contra os manifestantes, com a finalidade de provocar mais protestos. Quando fracassaram, começaram a enviar armas para apoiar os terroristas. Mas existiram manifestantes que protestaram honestamente? Que queriam uma mudança? Com certeza, mas não todos. Não se pode dizer que todos eles, como também não se pode dizer que todos eram terroristas.

P. O senhor visitou a Espanha duas vezes e os presidentes José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero também visitaram a Síria quando estavam no cargo. Como tem sido sua relação com a Espanha desde então?

R. A Espanha de modo geral é contrária a qualquer solução arriscada na Síria. É algo que valorizamos. Não apoiaram nenhuma ação militar contra a Síria e disseram que isso complicaria ainda mais a situação. Não falam em derrubar o presidente e interferir em nossos assuntos nacionais. Disseram que tudo deve acontecer baseado em uma solução política e mediante um processo político. Isso é muito bom. Mas ao mesmo tempo, a Espanha é parte da União Europeia e isso faz com que fique atada às decisões da UE. Esperamos da Espanha esse papel em fazer chegar a mesma mensagem e transmitir nosso ponto de vista político sobre nosso conflito à União Europeia.

P. Na América Latina, em sua opinião, onde possuem o maior respaldo?

R. No geral, e é algo estranho e lamentável ao mesmo tempo, os países mais distantes da Síria têm uma visão muito mais realista do que acontece na Síria do que os europeus, que são mais próximos em distância, nós somos considerados como o quintal da Europa. Estou falando em nível oficial e enquanto sírio ao mesmo tempo. Eles nos conhecem muito mais e apoiam a Síria em todos os foros internacionais e não mudaram sua postura desde o início da crise.

P. O Brasil possui a maior comunidade síria no exterior. Como é sua relação com o Governo brasileiro?

R. Temos relações normais com eles, como temos com a Argentina, Venezuela, Cuba e todos os países da América Latina. Nossas relações não mudaram por conta da crise e eles conhecem cada vez melhor a situação e apoiam a Síria cada vez mais. Isso é muito diferente da postura europeia.

Fonte: El País

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