Vergonha para a Humanidade

Nos últimos dias, centenas de civis morrem em crimes de guerra na Síria

Na tarde de quarta-feira, duas bombas de barril, artefato dos mais destrutivos e letais, foram lançadas contra prédios de uma área civil em Aleppo, no Noroeste da Síria. O responsável pelo ataque esperou que as equipes de emergência pudessem transportar os que restavam vivos para o hospital al-Quds, onde médicos e enfermeiros começaram a trabalhar freneticamente para socorrê-los e famílias se amontoaram no portão de entrada em busca de informações sobre parentes feridos. Minutos depois, lançaram a terceira bomba sobre unidade.

Entre os mais de 50 corpos retirados dos escombros, até a tarde de ontem, estava o do único pediatra restante na cidade, doutor Wasem Maaz. Como outros mortos no ataque, ele trabalhava voluntariamente. Muitas das crianças sob seus cuidados também morreram, soterradas no prédio reduzido a ruínas. As cenas são chocantes demais para serem exibidas, mas não podem ser ignoradas pela História. São registros da barbárie ocorrida sob os olhos da comunidade externa. O ataque aconteceu durante um cessar-fogo que deveria ser mantido até o fim das negociações de paz, ainda infrutíferas, em Genebra.

Em entrevista à coluna, por telefone, o presidente da Médicos Sem Fronteiras espanhola, responsável pelas operações da organização na Síria, José Antonio Bastos, vê no ataque uma ação premeditada e proposital contra agentes de ajuda humanitária e de saúde, como tática de guerra.

Diante do impasse em Genebra sobre sua permanência no poder, o presidente Bashar al-Assad, que tem apoio da Rússia, intensificou bombardeios nos últimos dias para tentar cercar o leste de Aleppo e estrangular a oposição, deixando-a sem saída e sem acesso a suprimentos, comida, assistência humanitária ou médica, matando-a aos poucos — e a população, já exausta e faminta, com ela.

Centenas de civis morreram nos ataques dos últimos dias. “Embora não haja evidências sobre quem é o responsável por este ataque, nós sabemos que Assad tem usado bombas de barril contra alvos civis. No contexto da guerra na Síria, somente seu Exército e aliados dispõem de força aérea, e os ataques ocorreram contra áreas da oposição. Com isso, aliado ao fato de que temos testemunhado uma tentativa do governo de cercar Aleppo, é possível afirmar que, provavelmente, o ataque ao hospital faz parte dessa ofensiva”, disse Bastos. “Esse hospital era um dos mais antigos ainda em operação e todas as partes desse conflito sabiam de sua existência e localização, o que nos leva a crer que foi ataque deliberado.”

Diante dos ataques dos últimos dias, as equipes médicas estavam operando com toda o pessoal. “Nós sabíamos que uma ofensiva maior estava por vir”, disse Jose Antonio. Mas ninguém poderia imaginar que seria contra o hospital. “Já não há como estar seguro em Aleppo.” Antes uma cidade moderna de cinco milhões de habitantes, Aleppo tem hoje 250 mil civis sitiados pelos confrontos e aterrorizados. Até o ataque ao hospital, restavam apenas 25 médicos na cidade. No mês passado, ao menos quatro outros hospitais foram atacados.

Nos últimos anos, as atrocidades do Estado Islâmico chocaram o mundo e serviram para criar um clima de terror com o qual o grupo conquistou avanços. Mas o horror beneficiou sobretudo o governo de Assad.

“Todas as partes do conflito cometeram agressões contra civis. A violência do EI é bem conhecida, mas enquanto o mundo estava preocupado com o grupo, em termos quantitativos e no que diz respeito ao uso de bombas de barril… O governo sírio tem mais a ser responsabilizado”, diz José Antonio. “O nível de violência e desumanidade é geral, mas o número e a violência dos ataques pelo governo sírio têm sido maiores.”

Nos conflitos, equipes de busca e resgate, hospitais e áreas onde há civis devem ser poupados, segundo as convenções de Genebra, e ataques contra tais alvos são crimes de guerra.

“Bombardear um hospital é, em qualquer circunstância e sem sombra de dúvidas, um crime de guerra. Mas um ataque como este, sem nenhum alerta prévio e da forma premeditada como tem sido feito, com uma bomba lançada no hospital onde feridos, equipes de resgate e de saúde, além de famílias, se aglomeravam como consequência de dois outros ataques anteriores, vai muito além. É uma vergonha para a Humanidade.”

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/vergonha-para-humanidade-19201867#ixzz47JlBchaC
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