Trump e o “canto da serpente”

Na semana passada, Donald Trump recebeu calorosamente o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, em sua primeira visita aos Estados Unidos, oportunidade em que o presidente exaltou a venda de equipamentos militares como um impulso à criação de emprego para norte-americanos, apesar das críticas acerca do envolvimento saudita na “guerra por procuração” travada contra o Irã em território iemenita.

O príncipe Salman havia agendado visita ao Egito, Reino Unido e Estados Unidos,  objetivando por em prática sua campanha para mudar a imagem do reino mostrando ao Ocidente que a Arábia Saudita estaria aberta à visitação. E prontamente, a porta-voz da presidência, Sarah Sanders, proferiu comunicado declarando : “o presidente espera poder discutir formas de fortalecer os laços entre Estados Unidos e a Arábia Saudita[1]”.

Realmente, o poder bélico estadunidense exerceu influência poderosa para o “fortalecimento de laços” euforicamente enaltecidos por Trump e Mohammed. Contudo, segundo a rede CNN, o príncipe herdeiro teria se sentido “humilhado” quando o presidente americano mostrou gráficos expondo as vultosas aquisições sauditas em relação aos equipamentos militares dos Estados Unidos, abrangendo, dentre outros, navios, defesa antimísseis, aviões e veículos de combate[2].

Constrangimentos à parte, Mohammed teve motivos para largos sorrisos: o Departamento de Estado norte-americano já submeteu ao Congresso a aprovação de possível venda de milhares de mísseis antitanque TOW, parte de um pacote maior de US$ 1 bilhão, que também inclui a manutenção de helicópteros e peças de reposição para veículos militares.

Às aquisições acima, devem ser somadas a possível venda de US$ 300 milhões em peças para a frota de tanques Abrams e veículos blindados da Arábia Saudita, bem como equipamentos e serviços no valor de US$ 106,8 milhões para a frota de helicópteros militares do reino[3].

De acordo com a imprensa, Trump e Mohammed discutiram um acordo de 2017, orçado em US$ 200 bilhões em investimentos sauditas com os Estados Unidos, incluindo grandes compras de equipamentos militares, reforçando a tese de que as mencionadas vendas contribuiriam para a criação de 40.000 empregos[4]. Todavia, Mohammed, arriscou dizer em inglês que os investimentos serão de US$ 400 bilhões, assim que forem totalmente implementados, em dez anos.

Em retribuição à oferta de investimento saudita, Trump além de declarar que os laços que unem os dois países estão fortes como sempre, teceu elogios ao rei Salman, afirmando que teria tomado uma “decisão muito sábia”, declarando ainda que sentia falta do rei, chamando-o de “um homem muito especial”.

Importante ressaltar que o príncipe herdeiro alvoroçou não somente Trump, mas outras autoridades influentes que fizeram “fila” para reuniões, incluindo o secretário de defesa, tesouro e comércio, o diretor da CIA e líderes do Congresso (democratas e republicanos).

Para coroar o discurso regado a “sangrentos petrodólares”, Trump criticou o Irã dizendo: “O Irã não tem tratado essa parte do mundo, ou o próprio mundo, apropriadamente. Muitas coisas ruins estão acontecendo no Irã”.

A declaração presidencial me incomoda… Como assim? “Muitas coisas ruins” também não estariam acontecendo na aliada Arábia Saudita? Porém, já me “corrijo” reconhecendo que os interesses geopolítico e comercial “eclipsam” o enfoque dos “direitos humanos” para a mídia mainstream e comunidade internacional no que tange às “nações amigas da onça”.

Mohammed tem impactado muitas lideranças ocidentais por conta de algumas  decisões que são recebidas pelos desavisados como a defesa de um “Islã moderado” em detrimento do fundamentalismo característico do país exportador da “doutrina whahabita”, que embasa ações terroristas em todo mundo. Certamente, os amigos de Mohammed desconsideram máculas importantes no “currículo real” do moço de 32 anos que promoveu a detenção de alguns dos homens mais ricos e poderosos de seu país numa fraudulenta “campanha anticorrupção”, denunciada como parte de tomada autoritária do poder violando a lei.

Outrossim, o príncipe herdeiro é um dos responsáveis pela catástrofe humanitária que assola o país mais pobre do mundo árabe. Ao iniciar a guerra no Iêmen, Mohammed era ministro da defesa e nada fez para coibir as violações dos direitos humanos que a Arábia Saudita vem perpetrando junto com seus aliados na guerra contra os rebeldes Houthis, apoiados pelo Irã. Os ataques aéreos da coalizão que lidera e o bloqueio de portos iemenitas vêm causando milhares de mortes entre os civis e a mais grave crise humanitária da atualidade, classificada como “catástrofe humanitária” por especialistas em direitos humanos.

Os horrores promovidos pela “monarquia do terror” incitaram Trump a reprovar as ações sauditas exigindo no ano passado o fim “imediato” do bloqueio imposto para a chegada de assistência humanitária ao país com mais de 11 milhões de pessoas esfaimadas. Porém, o presidente dos EUA não aceita o corte da ajuda para as operações militares do reino e o seu desejo foi acatado pelo Congresso, que rejeitou a resolução propondo o encerramento do apoio americano à campanha militar saudita que já matou mais de dez mil pessoas.

A postura de Trump tem se revelado decepcionante. Em tempos de campanha eleitoral, era a democrata Hillary Clinton a impetuosa defensora do reino apresentando-o como “força de paz e estabilidade”, enquanto Trump o criticava com veemência. Vale trazer à lembrança as palavras de Trump após os “atentados de 11 de Setembro”, acusando Riad de ser “o maior financiador mundial de fundos para o terrorismo”.

Disse Trump: “a monarquia petrolífera utiliza nossos petrodólares – o dinheiro nosso – para financiar os terroristas que buscam destruir nosso povo enquanto os sauditas contam conosco para protegê-los”. Durante a campanha, o então candidato republicano ameaçou bloquear as importações de petróleo saudita se o país não se engajasse na luta contra o Estado Islâmico.

Sete meses após a eleição, a primeira visita oficial do presidente Trump ao exterior foi justamente na Arábia Saudita. O republicano preferiu “esquecer” do relatório de inquérito parlamentar (2002) sobre os “atentados de 11 de setembro”, indicando que as autoridades sauditas prestaram assistência material para os terroristas/sequestradores e o grupo al-Qaeda. A “memória curta” deve ser também culpada pelo esquecimento de Trump em relação ao e-mail de 2014, divulgado pelo WikiLeaks, onde Hillary se queixava das autoridades sauditas e do Qatar, suspeitas de fornecerem apoio financeiro e logístico clandestino a grupos sunitas radicais na região”, leia-se, “facções terroristas islâmicas”.

Lamentavelmente, justificativa de “viés econômico” vem servindo para Trump trair compromissos de campanha abraçando a “serpente do deserto”. As “benfeitorias enganosas” de Mohammed  não escondem o “projeto de poder” vislumbrado pela jihad  (guerra santa) lançada por Maomé há mais de 1.400 anos, exigindo a submissão de toda terra ao Islã. A maior prova de que a Arábia Saudita continuará promovendo o terror no Ocidente vem dos seus próprios livros didáticos que ensinam a violência e ódio contra minorias[5].

Trump não teve “coragem” de criticar o conteúdo intolerante dos livros didáticos sauditas exaltando a jihad como luta contra não-muçulmanos, prescrevendo a execução de apóstatas e daqueles que zombam de deus ou do seu profeta Maomé, além de ensinar a humilhar não-muçulmanos e alertar os muçulmanos a não se associarem com os infiéis. Acreditar que um país islâmico conhecido como Dar al-islam (terra do Islã), que cultua a “jihad” contra o Ocidente vai negar a fé celebrando a “paz” com Darl al-Harb (terra da guerra)  é, no mínimo, patético.

Definitivamente, o “infiel Trump” caiu no “canto da serpente”…

[1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/trump-recebera-principe-herdeiro-saudita-em-20-de-marco.ghtml

[2] https://www.haaretz.com/middle-east-news/trump-humiliated-saudi-crown-prince-while-boasting-about-arms-sales-1.5938561

[3] http://www.arabnews.com/node/1271866/saudi-arabia

[4] https://af.reuters.com/article/africaTech/idAFL1N1R214P

[5] https://www.middleeastmonitor.com/20180325-us-religious-freedom-body-urges-saudi-to-prioritise-textbook-reform/

 

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