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Professor franco-argelino da UFRJ é deportado

Adlène Hicheur é condenado por terrorismo na França

RIO – O professor franco-argelino Adlène Hicheur, que trabalhava como pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi deportado sumariamente na noite desta sexta-feira. Ele foi detido e levado escoltado pela Polícia Federal até o Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, onde embarcou às 22h25 num voo para a França. Hicheur foi condenado em Paris a cinco anos de prisão, em 2009, por ligações com terroristas. Hicheur, que chegou ao Brasil em 2013, tinha vínculo com a UFRJ até este mês. Em nota, a universidade revelou que foi surpreendida pela ação. Nem o Ministério da Justiça, nem a Polícia Federal quiseram comentar o assunto.

No texto, a UFRJ afirmou que o professor visitante Adlène Hicheur era pesquisador do Instituto de Física e estranhou a ação: “Manifestamos extrema preocupação com a ação, anunciada sem apresentação de justificativas claras e atenção a princípios democráticos básicos, como direito à defesa”. Ainda segundo a universidade, “o pedido de renovação de contrato do professor — que vencia este mês — foi analisado pelos vários colegiados da UFRJ e aprovado na universidade”.

A reitoria também informou que o “professor desenvolveu na UFRJ novas linhas de pesquisa, assim como deu continuidade a trabalhos já em andamento quando da sua contratação”. Dentre os trabalhos científicos realizados, segundo a universidade, “podem ser destacados artigos e descobertas importantes para a Física de Partículas”.

A notícia de que o professor franco-argelino estava sendo deportado foi confirmada primeiro pela Associação dos Docentes da universidade, mobilizando até mesmo o reitor da UFRJ, Roberto Leher, que tentou impedir a ação, acionando um grupo de advogados.

Em janeiro deste ano, a revista “Época” revelou que o físico franco-argelino estava sendo monitorado no Rio pela Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) depois de ter sido condenado por terrorismo na França. Preso em 2009, ele cumpriu a pena e chegou ao Brasil em 2013. Na época, a UFRJ disse que a contratação do professor seguiu os trâmites habituais.

Ainda em janeiro, o Instituto de Física da UFRJ anunciou que havia substituído o professor Adlène Hicheur das salas de aula, mas o manteve como pesquisador na pós-graduação. Na época, disse que a decisão foi tomada “para evitar que influências não acadêmicas interfiram no andamento das aulas”. A decisão de manter o professor exercendo atividades de pesquisa aconteceu no momento em que o governo federal discutia, internamente, sua situação no país. Na época, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prometeu solução para o caso.

Também em janeiro, Hicheur avisou aos colegas que iria deixar o Brasil, mas, oficialmente, não tinha avisado à reitoria da UFRJ. Ele teria dito a amigos que era uma “questão de honra” viajar por conta própria, antes de ter o visto suspenso.

Diante da repercussão do caso, a UFRJ e a Universidade Federal Fluminense (UFF) defenderam o modelo de isonomia que permite a contratação de professores estrangeiros para ministrarem cursos nas universidades brasileiras. A UFRJ chegou a dizer que não é atribuição da universidade deliberar sobre antecedentes criminais de professores. Segundo a UFRJ, “o ingresso de estrangeiros está condicionado às leis vigentes no país, e a situação do passaporte está subordinada à avaliação do Ministério da Justiça”.

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Governo brasileiro sabia de condenação por terrorismo quando deu visto a professor da UFRJ

Itamaraty diz que consultou PF e Abin sobre condenação do professor, mas órgãos dizem que foram apenas comunicados

Documentos revelam que o governo brasileiro sabia que o cientista franco-argelino Adlène Hicheur tinha sido condenado por planejar atentados terroristas na França quando ele obteve visto para dar aulas na UFRJ e morar no Rio de Janeiro. ÉPOCA obteve, por meio da Lei de Acesso à Informação, telegramas que discutem o caso do professor e mostram que aembaixada do Brasil em Genebra sabia da condenação e, por isso, pediu a autorização de Brasília para dar visto ao professor.

O informe relata que “Hicheur foi preso, em outubro de 2009, e condenado, em maio de 2012, por envolvimento com a Al Qaeda no Magreb Islâmico; já tendo cumprido quase três anos de prisão, foi libertado poucos dias após a sentença condenatória”. O Itamaraty não cita a expressão terrorismo. Hicheur foi preso e condenado por planejar atentados, que incluíam ataques a embaixadas e a execução de assassinatos de personalidades na França.  As provas são e-mails trocados num fórum jihadista com um membro da Al Qaeda.

No telegrama, Ernesto Rubarth, então Cônsul-Geral em Genebra, admite que tinha poderes para autorizar o visto, mas queria o aval de Brasília. Embora tenha sido condenado na França, o professor morava em Genebra. “Informo e rogo instruções. Ainda que seja dispensada a consulta, apresento a Vossa Excelência a solicitação a seguir, que penso merecedora de consideração mais aprofundada”, escreveu.

INFORME Telegrama mostra que governo brasileiro sabia da condenação do cientista francês (Foto: Reprodução)INFORME Telegrama mostra que governo brasileiro sabia da condenação do cientista francês (Foto: Reprodução)

O caso foi rápido. O telegrama foi enviado em 03 de junho de 2013. Abin e Polícia Federal foram informadas dois dias depois e, no fim do mês, o Itamaraty autorizou o visto. As versões, contudo, não batem. Segundo o Itamaraty, Abin e Polícia Federal foram consultadas e não se opuseram à concessão de visto. “A Abin informou não haver óbice à emissão do visto, e a Polícia Federal não respondeu (o procedimento regular da PF é não responder quando não há problemas com o pedido)”, disse o Itamaraty em nota enviada a ÉPOCA. “Os órgãos de segurança competentes não se opunham à sua vinda”.

>> Professor da UFRJ condenado por terrorismo diz que França “fabricou” acusação
As explicações de Abin e PF são diferentes da versão do Itamaraty. A Abin afirma que não tem poderes para vetar ou autorizar o ingresso do professor condenado. “Não é prerrogativa da Abin evitar o ingresso de estrangeiro no país. O envio de telegramas com esse teor não tem caráter de consulta, mas de comunicado”, disse o órgão por meio de nota.

Em nota, a Polícia Federal disse que foi apenas comunicada. “A concessão de vistos a estrangeiros é atribuição de competência exclusiva do Ministério das Relações Exteriores. A Polícia Federal não é instada a se manifestar no processo de concessão do benefício diplomático”.

Quando o caso foi revelado por ÉPOCA no começo do ano, o governo brasileiro se mobilizou para se descolar do caso. O ministro Aloizio Mercadante (Educação) chegou a dizer que ele deveria ter sido barrado, mesmo com o currículo invejável.

O episódio início em 2009, quando o professor teve uma crise de dores na coluna e foi para a casa dos pais, na França. Lá, passou a frequentar um fórum na internet usado por jihadistas e a trocar mensagens com um interlocutor apelidado de “Phenix Shadow” (fênix da sombra, numa tradução literal), na qual tratou de ataques na França. Ele ficou preso até 2012, foi condenado na França e está proibido de entrar na Suíça, onde trabalhava, até 2018.

RETORNO À EUROPA

Quando ÉPOCA revelou o caso, Adlène Hicheur chegou a anunciar a colegas que deixaria o país. Isso levou o ministro Aloizio Mercadante a dizer que “devemos reconhecer que é um gesto que contribui e resolve o problema para o Brasil”. Passados mais de 80 dias, Adlène Hicheur permanece no Brasil, onde faz pesquisas para a UFRJ e recebe seu salário normalmente. Ele apenas está afastado da sala de aula.

Questionado, Hicheur não respondeu às perguntas de ÉPOCA. Ele encaminhou as mensagens a Ronald Shellard, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que fez o primeiro convite para Hicheur vir ao Brasil. “Quando ele foi ‘liberado’ da prisão, colegas do CERN (pessoas em quem tenho grande confiança) nos procuraram para saber se poderíamos dar uma posição a ele, para que voltasse a trabalhar em ciência (onde tem importante reputação).  Consultamos o Itamaraty e recebemos a resposta de que se tinha cumprido pena e estava quites com a justiça (francesa) ele poderia vir ao Brasil (é parte de nossa legislação)”, disse.

Ronald Shellard destacou ainda que, para a comunidade científica brasileira, Adlène Hicheur deveria continuar no Brasil. O ministro da Educação discorda. Questionado sobre o fato de que o governo brasileiro sabia da condenação de AdlèneHicheur quando concedeu visto, Mercadante reafirmou que ele deveria ter sido impedido de entrar no país. “Não mudo minha opinião: ele não deveria ter sido aceito, pelo histórico da sua condenação pela Justiça Francesa. Fui informado, na ocasião, pela reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro que ele seria afastado imediatamente das atividades de docência e que sua contratação foi temporária e se encerraria no fim deste semestre”, disse Mercadante. Questionada, a UFRJ disse que AdlèneHicheur continua como pesquisador. “O contrato dele continua vigente, ele trabalha apenas em pesquisa. Não houve pedido de afastamento”, disse a reitoria.

http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/04/governo-brasileiro-sabia-de-condenacao-por-terrorismo-quando-deu-visto-professor-da-ufrj.html

Professor da UFRJ investigado por terrorismo é elogiado por colegas

Preso na França,  foi convidado para trabalhar no Brasil.

O franco-argelino Adlène Hicheur é alvo de investigações da Polícia Federal, mas a qualidade seu trabalho, segundo seus colegas brasileiros, paira acima de qualquer suspeita. Embora a condenação por atividade terrorista na França tenha provocado seu afastamento do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), cientistas da instituição intermediaram sua vinda para o Rio, em 2013, onde retomou seus projetos no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

De acordo com o diretor do centro, Ronald Shellard, o Ministério das Relações Exteriores estava ciente dos problemas de Hicheur com a Justiça.

— Liguei para o Itamaraty e alertei sobre todos os fatos, porque não queria trazer um problema para cá — explica. — Ele veio por volta de 2013 e trabalhou dois anos aqui. Fez trabalhos relevantes e seu grupo estava muito satisfeito, tanto que depois conseguiu um emprego na UFRJ. Nossa posição é de que nos envolvemos com uma pessoa cujo desempenho era elogiado aqui e no Cern.

Hicheur, segundo Shellard, tem parentes na Europa e os visita regularmente. Nunca passou por constrangimentos com seus colegas de trabalho, que sabiam de sua prisão.

— Há coisas sobre as quais não se faz alarde, mas que também não se escondem. Agora, com a exposição na mídia, ele está numa posição complicada.

Shellard afirma que o colega estava na Europa quando um extremista muçulmano mostrou uma camisa com o símbolo do Estado Islâmico na mesquita que costuma frequentar, na Tijuca, logo após os atentados contra o semanário satírico “Charlie Hebdo” em Paris, em janeiro de 2015. Segundo Shellard, o homem não era frequentador da mesquita — teria ido lá apenas naquela vez.

— O Adlène tornou-se um caso célebre porque as evidências (da prisão) foram baseadas apenas na internet. As acusações só foram formuladas na época em que foi solto, aí houve um julgamento sobre a pena que ele já tinha cumprido.

Procurado para confirmar a autorização das atividades profissionais de Hicheur no Brasil, o Itamaraty declarou que é preciso verificar a situação com as instituições governamentais envolvidas na concessão do visto de trabalho. Hoje, Hicheur trabalha no Instituto de Física da UFRJ, que informou ter checado o visto na época. O professor Leandro de Paula, colega na universidade, diz que o franco-argelino “nunca negou” os e-mails que o incriminaram:

— É um pesquisador excelente. Sei que a reitoria tem uma série de documentações legais. Mas não sei se conhecem a sua história.

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