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O dilema de Ecoar a Voz dos Mártires num país majoritariamente cristão

Por Andréa Fernandes

Hoje, a luta de uma brasileira como projeto para dar voz às minorias perseguidas em países muçulmanos completa 3 anos. Num momento apropriado, serão externados os meandros que deram origem à ONG Ecoando a Voz dos Mártires, mas a data especial de aniversário da única instituição humanitária que reivindica os direitos de minorias esmagadas pela tirania islâmica não poderia passar sem algumas reflexões necessárias.

Quando cursei Relações Internacionais, lembro que qualquer questão em sala de aula que versasse sobre Cristianismo era tratada, na melhor das hipóteses, com desprezo, sendo que na maioria das vezes, o escárnio “brilhava” na face dos professores, e apesar de a perseguição contra cristãos ser uma realidade em países muçulmanos e comunistas, NUNCA houve qualquer menção dessa violação de direitos humanos em solo acadêmico. Pelo contrário, alguns professores ordenavam a leitura de uma série de artigos de autores multiculturalistas na tentativa desumana de disseminar a ideia de que todos os seguidores da cultura islâmica seriam propensos a assimilação.

E qualquer tentativa de demonstrar que alguns discípulos de Mohammad utilizavam bases religiosas para disseminar o terror era severamente punida como certa feita aconteceu comigo. Uma professora ativista da “causa palestina” indicou a confecção de artigos que deveriam ter o conteúdo explicado verbalmente pelos alunos, e eu tive a ousadia de escrever um artigo sobre o grupo terrorista islâmico palestino Hamas. Antes de apresentar o trabalho para os demais alunos, ouvi da “professora”: “pessoal, esse é um exemplo de trabalho que não pode ser considerado acadêmico e sim, senso comum”. Durante minha fala, alguns alunos faziam deboches mencionando Israel e a professora-ativista gargalhava!

Lógico, que ao final, discuti com a defensora do fundamentalismo islâmico que dá base para o terrorismo e levei o assunto à direção da faculdade. Como além de ativista panfletária, a referida senhora era também péssima professora e não cumpria com sua obrigações contratuais, foi dispensada pela direção, mas, sofri perseguição até a conclusão do bacharelado, pois, eu ainda tinha o péssimo hábito de defender o “sionismo”, considerado “crime intelectual” em diversas, senão todas universidades brasileiras.

Como nunca vi nenhum curso, simpósico, conferência ou palestra de cunho acadêmico ou não, denunciando e condenando a terrível perseguição de governos muçulmanos contra minorias, e sabedora por uma organização cristã mundialmente conhecida sobre a perseguição violenta aos cristãos, resolvi me aprofundar no tema. Estudei bastante e comecei a ler as matérias da mídia árabe que são sutilmente ocultadas pela mídia ocidental. Daí, descobri que nenhuma instituição tinha conseguido demonstrar a contento o verdadeiro estado deplorável em que se encontram não somente os cristãos, mas diversas outras minorias no mundo muçulmano. Além disso, descobri que o próprio ativismo LGBT de esquerda tão agressivo em suas “manifestações anti-cristãs”, se calava em relação à violência que seus pares sofriam em países muçulmanos. Deve ser mais fácil cometer “blasfêmia” numa perspectiva cristã do que blasfemar contra os preceitos da “religião da paz”, que impõe a pena de morte contra homossexuais.

Resolvi não me calar diante de um mundo de injusitça que se “descortinava” diante dos meus olhos… Suplicava oportunidade para palestrar em igrejas no afã inocente de lograr apoio e mergulhei nas redes virtuais com incontáveis denúncias, inclusive, referentes às igrejas que promoviam a religião que no seu corpo doutrinário induz a perseguição aos cristãos como a “religião da paz”. Seguidores de pastores submissos à sharia (lei islâmica) me perseguiram ao ponto de ser obrigada a cancelar um perfil no Facebook. Dá para acreditar nisso?

Nesses três anos de luta organizada denunciando as aberrações promovidas por governos, grupos e comunidades que professam o Islã conforme ensinado há mais de 1.400 anos pelo profeta Mohammad, foram muitas as surpresas e decepções. Jamais imaginei o quanto a igreja brasileira – seja evangélica ou católica – desprezaria a dor que seus “irmãos” passam em terras muçulmanas e comunistas. Alguns, até se emocionavam e choravam ao assistir minhas palestras na época em que não presidia a ONG EVM, e no calor do momento, prometiam “mundos e fundos”, que rapidamente foram substituídos pelo torpor que o mundo gospel promove às custas da “teologia da prosperidade”. Porém, foi uma ativista não-cristã, de nome Silvia Moral, diretora de uma presitigada ONG em Sorocaba, interior de São Paulo, que lendo meus textos no Facebook, se comoveu e me aconselhou a promover a causa através de uma instituição humanitária, oportunidade em que, me presenteou com a associação que veio a ser chamada de Ecoando a Voz dos Mártires. Não paguei um real pelos serviços que Silvia promoveu através de seu escritório de contabilidade para administrar a ONG.

Isso me levou a pensar: palestrei em tantas igrejas com o objetivo de convencer os “crentes” a socorrer seus irmãos “in loco” e nunca houve o aconselhamento e ajuda para se constituir uma ONG. Mas, uma ativista que não segue o Cristianismo se compadeceu… E quantos pensam que a “compaixão” é uma virtude exclusivamente “cristã”? Esse caso me lembrou os ateus que passaram a apoiar minha luta e alguns ativistas LGBTs de direita que trabalharam muito para levar meus vídeos em francês para o exterior.

De igrejas, quando muito, ouvia promessas e mais promessas… Foram poucas que me receberam e forneceram algum tipo de apoio e se relatar alguns “acontecimentos” envolvendo políticos, jornalistas e pregadores famosos do mundo evangélico, certamente escandalizaria a muitos… A aversão da “igreja” pelo tema “perseguição aos cristãos e minorias no mundo muçulmano” envolve algumas situações que posso descrever em outra oportunidade, como, aliás, já abordei em outros tantos artigos, porém, não deixa de ser totalmente vergonhosa e anti-cristã a conduta de quase completa omissão.

Desde 2006, participei de reuniões no Ministério das Relações Exteriores (MRE) e denunciei a Cristofobia em países muçulmanos, solicitando à nossa diplomacia a denúncia e condenação da perseguição promovida contra cristãos na Assembleia Geral da ONU que acontece anualmente em setembro, na sede das Nações Unidas. O representante do MRE, Pedro Saldanha, havia se prontificado a encaminhar o assunto ao Itamaraty e a incauta aqui tentou de diversas formas conseguir apoio de importantes “convenções evangélicas” brasileiras. Todavia, o socorro à “igreja perseguida” ainda não integra a “pauta de preocupação” de grande parte das lideranças evangélicas e católicas no país majoritariamente cristão.

Perseguição só vai compor pauta de discussão quando a “explosão de poder” dentro dos templos evangélicos for “bombástica”! Contudo, cabe a mim prosseguir numa seara que não sensibiliza muitos “mercadores da fé” a instaurar “milionárias campanhas”… No Brasil, a campanha que agrada a cristandade é aquela que abastece o próprio ventre.

Andréa Fernandes é advogada, internacionalista, jornalista, colunista de Portais de Notícias, Presidente da ONG Ecoando a Voz dos Mártires e Líder do Movimento Nacional pelo Reconhecimento do Genocídio de Cristãos e Minorias no Oriente Médio.

Imagem Amnesty International

Iémen: A guerra esquecida

Por Mohammed Shaikhibrahim

A euronews acompanhou o exército regular numa das frentes de batalha. Chegámos à província de Lahj, no sul. A partir desta região tentam chegar à capital, que está nas mãos dos rebeldes desde 2014.

Mothana Ahmed é um oficial do exército nacional. “Queremos garantir ao nosso povo que está em todo oIémen que não o vamos abandonar, vamos recuperar cada centímetro de terra e vamos continuar a progredir até à erradicação do último dos Houthis e das forças leais ao antigo presidente Ali Abdullah Saleh”, afirma Ahmed.

Em resposta à aliança de circunstância entre Houthis e o expresidente Saleh, a coligação árabe liderada pela Arábia Saudita passou a apoiar as tropas regulares.
Os ataques aéreos, a chamada “Operação Tempestade Decisiva”, começaram a 25 de março de 2015.

E foi através destes raides que o exército conseguiu recuperar o controlo de Aden.
A cidade no sul do país tem uma enorme importância estratégica nesta guerra.
Está muito próxima do estreito de Bad al-Mandeb, o principal ponto de passagem dos navios internacionais.

O governador de Aden, Adrous al Zoubaidi garante que “estamos prontos para libertar todas as cidades do Iémen que estão nas mãos dos Houthis, com todos os meios à nossa disposição, legais, pacíficos e militares. Estamos prontos a libertar a honra e a religião das mãos dos Houthis porque são um grupo rebelde que se afasta do consenso do povo iemenita e das suas tradições, com o apoio externo do Irão”.

No meio deste caos há ainda um terceiro grande protagonista.
A Al-Qaeda tem uma forte presença também nas cidades do sul do país.
O grupo extremista é responsável por vários atentados que visam, sobretudo, os soldados fiéis ao presidente eleito Abed Rabbo Mansour Hadi.

Sana, a capital nas mãos dos rebeldes

Seguimos para o centro, até à capital Sana, controlada pelos Houthis desde 21 de setembro de 2014. Um controlo total apoiado por dezenas de milhares de combatentes do grupo Ansar Allah. Foi adotada uma espécie de nova constituição que fez do Comité Revolucionário, liderado por Mohammed Ali al-Houthi, a mais alta autoridade.

“Estamos dispostos a lutar até ao fim, até à independência total do nosso país, libertá-lo de toda a ingerência estrangeira, de forma a vencer os invasores da nossa terra. Mas quem são os derrotados desta guerra? Os derrotados são os filhos dos povos árabes e muçulmanos. No sul, os nossos inimigos estão a dar apoio a grupos terroristas enquanto fingem que os estão a combater”, garante Mohammed Ali al-Houthi.

Os Houthis têm um enorme apoio em Sana e conseguiram a difícil tarefa de juntar as mais importantes tribos, ou seja, o coração da sociedade iemenita. Além disso, muitos chefes militares juntaram-se ao movimento.

O líder do Comité Revolucionário acredita “a Arábia Saudita não entrou nesta guerra por vontade própria: recebeu ordens para liderar esta guerra. Acreditamos são os Estados Unidos que a estão a controlar. São eles que coordenam as operações militares, que definem os alvos a ser bombardeados pelos aviões.”

Os Houthis regem-se por vários slogans: “Morte a Israel. Morte aos americanos e aos amaldiçoados que apoiam os judeus. De acordo com vários relatórios, o movimento também conta com ajuda dos libaneses do Hezbollah.
A nível militar, grande parte dos meios são fornecidos pelas forças fiéis ao antigo presidente Ali Abdullah Saleh. Apesar de ter sido deposto após a revolução de 2011, continua ser uma das principais figuras do país.

Mas as dúvidas são muitas. Um habitante de Sana pergunta porque “tanta destruição…Porque apareceu esta revolta na sociedade do Iémen? Quais são os objetivos desta revolta? E onde nos vai levar? Estes ataques destruiram completamente o país. Até agora não tivemos nada de positivo. Esta agressão liderada pela Arábia Saudita contra nós é injusta. Poderiamos dar uma resposta mais forte mas a grande questão é: porque é que lutamos uns contra os outros?”

Saada, o berço movimento Houthi

A nossa viagem pelo Iémen continua em direção a Saada.
No extremo norte do país, foi nesta cidade que nasceu o movimento Ansar Allah, foi daqui que sairam os primeiros Houthis. Saada foi palco de várias guerras durante o antigo regime.
E agora, mais uma vez, volta a estar no centro de um conflito. Os efeitos da guerra são visíveis em todos os cantos e esquinas da cidade.

O enviado da euronews ao Iémen, Mohamed Shaikhibrahim lembra que “Saada tem um papel muito importante. Para além de ser o principal bastião do movimento Ansar Allah, é uma das cidades mais próximas da fronteira com a Arábia Saudita, o que a torna numa das zonas mais afetadas pelos combates”.

Aqui o nível de simpatia e apoio aos Houthis aumentou nos últimos anos por causa do cerco e destruição a que a cidade foi sujeita ao longo de todos estes anos de conflito.
Um morador da região garante que “o Iémen tem homens fortes e o Iémen vai ser um cemitério para os invasores. Não vamos permitir que avancem para dentro das nossas fronteiras. Vão ser derrotados nesta guerra”.

A Arábia Saudita acusa os Houthis de violar as fronteiras e bombardear as cidades fronteiriças, para além de ocupar os postos de controlo sauditas. Acusações negadas pelos Houthis que garantem que apenas se estão a defender dos bombardeamentose ataques a milhares de civis.

Rasha Mohamed, investigadora da Amnistia Internacional afirma que “todas as partes estão a cometer crimes de guerra: tanto a coligação, como os Houthis, como os grupos anti-Houthis que estão a lutar no terreno. Fomos a todas as regiões, temos dados de ataques no terreno realizados por grupos armados em Aden e em Taiz. Somos obrigados a dizer que nesta altura todas as partes envolvidas cometeram crimes de guerra e devem ser condenados imediatamente pela comunidade internacional”.
De acordo com relatórios de vários organismos internacionais, nomeadamente da Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional, entre os arsenais estão bombas de fragmentação que foram largadas em áreas residenciais, provocando a morte e ferimentos em centenas de civis.

Iémen: O paraíso para os negociantes de armas

No Iémen qualquer cidadão comum pode ter uma arma, quase todo o tipo de armas.
Algumas são interditas pelas leis internacionais em zonas habitadas. De acordo com os mesmos documentos, a quantidade de bombas e mísseis que atingiram as diferentes regiões do Iémen não estão de acordo com chamados os princípios de proporcionalidade e de prevenção, princípios que fazem parte das regras da guerra entre as nações.

O enviado da euronews ao Iémen, Mohamed Shaikhibrahim explica que “de acordo com as autoridades locais, os especialistas iemenitas têm muitas dificuldades para lidar com os mísseis e bombas, especialmente com as bombas de fragmentação. O trabalho de desminagem e desarmamento dos engenhos exige equipamentos especiais, que não existem no país por causa do bloqueio a que o Iémen está sujeito”.

Os Houthis acusam a Arábia Saudita e os países da coligação de utilizar vários tipos de armas internacionalmente interditas contra civis e exigem que seja feito uma investigação internacional. O general Yahya al Houthi garante que “entre as bombas utilizadas encontrámos algumas de origem britânica outras francesas, mas a maioria vem dos Estados Unidos. O que foi largado no Iémen, sobretudo na província de Marib, são bombas químicas, bombas de fósforo branco para além de bombas de fragmentação”.

Sempre acompanhados por elementos do grupo Ansar Allah, visitámos uma das montanhas que circundam a capital Sana. Os rebeldes garantem que a região de Jebel faj Attan foi atingida por bombas de neutrões e que provocaram uma enorme destruição na região.

Durante esta visita não nos foram mostradas quaisquer provas sobre a utilização deste tipo de arma de destruição em massa.

Mas o coronel Abdalillah Al Mutamayz afirma que “os especialistas identificaram o tipo de arma usada aqui e garantiram-nos que se tratou de uma bomba de neutrões uma vez que provocou muitos estragos, as montanhas transformaram-se em fragmentos perigosos e atingiu quem morava nas proximidades”.

Esta informação não foi confirmada por qualquer entidade independente e muitos especialista garantem que é impossível tratar-se de uma bomba de neutrões tendo em conta tipo de destruição.
De qualquer forma, a área atingida pela explosão ultrapassa os dois quilómetros. Quanto às vítimas, são centenas, de acordo com fontes do Ministério da Saúde.

Os relatórios divulgados pelas forças da coligação garantem que os bombardeamentos tinham como objetivo destruir depósitos de armas escondidos nas montanhas. Além disso, a força das explosões foi potenciada pelo arsenal que existia nesses depósitos dos Houthis e forças fiéis a Ali Abdullah Saleh.

Um país a morrer de fome

As consequências desta guerra, que conheceu um frágil cessar fogo que não fui nunca respeitado, para a população são devastadoras. A maior parte das cidades do Iémen foram palco de combates. O sofrimento dos civis é impossível de contabilizar e aumenta a cada dia uma vez que os bens de primeira necessidade são escassos.

Um morador da capital explica que “com o bloqueio não tenhos farinha para fazer pão, a água é racionada e não há outros alimentos. A fronteira principal foi bloqueada, a entrada da cidade de Hodeida foi fechada e não entram os navios com ajuda humanitária. As centrais eléctricas do Iémen foram destruídas”.

O Iémen já era considerado um dos países árabes mais pobres, mas guerra agravou o cenário: dos 26 milhões de iémenitas, 21 milhões vive em condições de pobreza. Entre eles 9 milhões sobrevive em condições de miséria sem nada para comer. Um outro morador garante que “há crianças que morrem por causa da seca. Não somos capazes de lhes dar nem sequer um copo de leite. Já vi crianças a morrer à fome, mulheres que abortam porque não ter o que comer. Não temos qualquer tipo de cuidados básicos”.

Muitos iemenitas atingidos por este conflito fazem manifestações semanais em frente às instalações daONU na capital para pedir ajuda e exigir a intervenção da comunidade internacional.

Al Mufti Taiz Sheikh Aqil ibn Sahl, é um dos ansiões de Sana e faz muitas perguntas :
“O que fazem as Nações Unidas pelo Iémen? O que tem feito por nós? Até agora têm sido incapazes de levantar o bloqueio e ajudar-nos com alimentos, medicamentos ou segurança. O que vamos fazer? “

Do lado da ONU há muitas justicações para esta falta de ação. Jamie McGoldrick, representante das Nações Unidas garante que “as restrições à importação de alimentos, medicamentos e combustíveis são difíceis de contornar para o público em geral mas também para nós. Além disso, fizemos um pedido à comunidade internacional de mil e 800 milhões de dólares para ajuda humanitária. Nesta altura, estamos no quinto mês do ano e recebemos apenas 16%.”

Milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as próprias casas. Outras tantas deixaram mesmo de ter casas. Sobrevivem nos campos de refugiados…onde não existe quase nada. De acordo com as últimas estimativas da ONU, no Iémen há quase três milhões de deslocados.

Uma refugiada entrevistada pela euronews explica que “não temos nada aqui. Não temos roupa, não temos comida, não temos água. A nossa situação é muito difícil, sofremos muito, comemos lixo, temos muitas doenças, passamos fome. Não conseguimos ir aos hospitais. Não nos resta mais nada a não ser pedir a ajuda de Deus…”

http://pt.euronews.com/2016/06/03/iemen-a-guerra-esquecida/

O estranho silêncio sobre a perseguição aos cristãos

Por 

Muitos pensam que, se o Ocidente permanecer afastado das disputas religiosas, o anjo da morte não irá escolher-nos. Mas a experiência dos judeus antes e durante a II Guerra mostra que isso não resulta

“Os cristãos estão a ser perseguidos em cerca de 50 países, entre eles a Coreia do Norte, a Síria, Somália e Sudão. (…) A limpeza étnica de cristãos é um dos grandes crimes da nossa época e estou chocado por ter havido tão pouco protesto internacional sério.”

Este alerta foi lançado no Telegraph de Londres, na passada terça-feira, pelo Rabi Jonathan Sacks. Na mesma edição, o diário britânico dedicou-lhe um editorial. No sábado, na sua coluna na revista The Spectator, Charles Moore (biógrafo autorizado de Margaret Thatcher) voltou ao tema:

“Seria de esperar que o assassinato de cristãos gerasse particular horror em países de herança cristã. No entanto, quase o oposto parece ser verdade. (…) Os políticos ocidentais raramente protestam contra o drama dos cristãos em terras muçulmanas ou raramente lhes oferecem ajuda.”

O ponto de partida para estes alertas residiu nos ataques desencadeados na Páscoa contra cristãos no Iémen e no Paquistão. No primeiro caso, o ataque foi dirigido contra uma casa de repouso dirigida por freiras católicas. A sobrevivente, Irmã Sally, descreveu o ataque premeditado contra as religiosas e os símbolos cristãos. Um padre indiano, Tom Uzhunnalil, foi raptado e terá sido crucificado no Domingo de Páscoa.

No seu artigo no Telegraph, Johnathan Sacks recorda outros episódios da perseguição contra os cristãos. “Em Mosul, uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo, os cristãos foram forçados a fugir no Verão de 2014. No Afeganistão, a última igreja foi queimada em 2010. Em Gaza, em 2007, depois da chegada do Hamas, a última livraria cristã foi queimada e o seu dono assassinado.”

Jonathan Sacks, que é hoje membro da Câmara dos Lordes britânica, foi Rabi chefe das congregações hebraicas da Commonwealth entre 1991 e 2013. Acaba de receber o Prémio Templeton 2016, no valor de 1,1 milhões de Libras (cerca de 1,4 milhões de euros). O prémio é atribuído anualmente pela Fundação John Templeton, sediada na Pensilvânia, e destina-se a distinguir pessoas que tenham dado “contribuições excepcionais para a afirmação da dimensão espiritual da vida, quer através da reflexão, da descoberta ou da acção”. Entre os anteriores premiados incluem-se Desmond Tutu (2013), Dalai Lama (2012), Michael Novak (1994), Inamullah Kahn (1988), Aleksandr Solzhenitsyn (1983) e Madre Teresa de Calcutá (1973), além de inúmeros cientistas que contribuíram para o diálogo entre ciência e religião.

No seu artigo no Telegraph, Jonathan Sacks denuncia o objectivo político do Isis/Daesh: restabelecer o Califado e restaurar o Islão como poder imperial. Mas existe outro objectivo partilhado por muitos grupos jihadistas, acrescenta:

“Silenciar qualquer um ou qualquer coisa que ameace expressar uma verdade diferente, outra fé, uma diferente abordagem à diferença religiosa. É isso que está por detrás dos ataques aos “cartoons dinamarqueses”; aos católicos depois de um discurso do Papa Bento XVI; do assassinato de Theo van Gogh; e dos ataques ao Charlie Hebdo. O cálculo dos terroristas é que, no longo prazo, o Ocidente acabará por ficar demasiado cansado para defender as suas próprias liberdades. Eles estão preparados para continuar a cometer atrocidades por muito tempo, décadas se necessário.”

No final do artigo, Jonathan Sacks retoma o argumento do seu livro mais recente “Not in God’s Name. Confronting Religious Violence” (Hodder & Stoughton, 2015). Aí argumenta que “precisamos que pessoas de todas as fés expressem a sua oposição activa ao terror em nome de Deus.” Num apelo directo às comunidades muçulmanas, Jonathan Sacks conclui: “nenhuma religião genuína alguma vez precisou da violência para provar a sua beleza, ou do terror para estabelecer a sua verdade. Isto não é fé, mas sacrilégio.”

A posição de Charles Moore, na Spectator, acompanha este alerta de Jonathan Sacks. Moore conjectura que, para alguns políticos ocidentais, os ataques aos cristãos em países muçulmanos são um pouco embaraçosos. Muitos podem pensar que, se o Ocidente permanecer afastado das disputas religiosas, o anjo da morte não irá escolher-nos.

Mas a experiência dos judeus antes e durante a II Guerra, prossegue Moore, deveria ensinar-nos que a estratégia de transformar as vítimas em problema não dá resultado. E conclui: “os eventos em Bruxelas são um lembrete de que a neutralidade estudada torna-nos mais fracos, não mais seguros.”

http://observador.pt/opiniao/estranho-silencio-perseguicao-aos-cristaos/

Hamas, Israel e Brasil

Tenho acompanhado o que se escreve e se fala sobre o embate entre Israel e o Hamas, e percebo muito nitidamente que a maior parte é devida a um anti-americanismo travestido de anti-sionismo. Por que digo isto? Porque é absolutamente claro o fato de que 99% dos “analistas”, entre eles até professores doutores que se dizem “especialistas”, não conhecem absolutamente nada sobre a realidade histórica, política e cultural daquela região. Imaginem que um escreveu recentemente que nas escolas de Israel se ensina o ódio, mas nas árabes tradicionalmente se ensina o Humanismo; será que ele se esqueceu que o Humanismo é um valor essencialmente ocidental?

Em primeiro lugar, o conflito tem sido mostrado como uma luta de coitadinhos que apenas desejam ser independentes no seu pedacinho de terra e que são impedidos pelos monstruosos e poderosos sionistas. Já se encontra aqui a primeira falha nestas análises baseadas apenas no ouvi-dizer: não compreendem que o Hamas não é um movimento nacionalista! Ele não busca a criação de uma pátria palestina, e nem pode, pois é parte da Irmandade Muçulmana, a qual busca um território islâmico, o Califado, um espaço muito mais amplo, sem fronteiras baseadas em conceitos ocidentais de estados-nações. Para atingir tal objetivo politico e religioso o Hamas une-se a inimigos antiqüíssimos, os xiitas, representados neste caso pelo governo iraniano.

Não que eles se apreciem, muito pelo contrário, após uma possível eliminação dos “infiéis” o primeiro passo será a disputa entre xiitas e sunitas para controlar o mundo islâmico, o Dar al-Islam. Prestem atenção nas atividades sauditas e egípcias, sunitas, para tentar contrabalançar o perigo que representa para eles um Irã nuclear. O Hamas não está lutando para criar um país chamado Palestina, o Hamas está lutando para tirar a legitimidade e poder da leiga Autoridade Palestina, oriunda da OLP, para assim iniciar a implementação de um governo baseado nas leis da Shaaria, acabando assim com a divisão entre a religião e o estado que é característica do mundo moderno.

Mas esta não é a única união espúria que existe neste emaranhado, existe outra muito interessante por sua total contradição: a união e apoio de grupos de esquerda, que tradicionalmente não têm qualquer tipo de religião em suas ideologias, até mesmo as combatem, com o que há de mais extremista no universo religioso, o fundamentalismo islâmico. Até hoje não entendi se isto é apenas uma união anti-americana que vai durar até que os dois grupos fatalmente entrem em luta tão logo o inimigo comum seja derrotado, ou se realmente eles acreditam na possibilidade de duração de um casamento tão esdrúxulo. Sem dúvida alguma, os líderes sabem perfeitamente que esta é uma união temporária, após a qual terão que lutar entre si, mas não sei se os seguidores percebem a contradição do que pensam e do que fazem.

Por que não vejo a mídia e os movimentos sociais no Brasil levantarem suas vozes sobre o que acontece no Sudão, na região de Darfur?

Se o apoio ao Hamas é dado devido às cenas de crianças árabes mortas e feridas, que fazem com que a indignação moral surja de forma imperativa, pergunto-me por que não vejo a mídia e os movimentos sociais no Brasil levantarem suas vozes sobre o que acontece no Sudão, na região de Darfur? Lá, a liderança do país pensa-se como árabe e islâmica, e mata livremente os povos negros islâmicos de Darfur. Onde estão as vozes gritando contra o horror? Onde está o avião do governo brasileiro levando comida e remédios para uma população que precisa muito, mas muito mais que os palestinos? Ao contrário dos palestinos, os povos de Darfur não têm irmãos de raça com petrodólares ou petroeuros para ajudá-los, estão ao Deus-dará, massacrados, extirpados, estuprados e mutilados pelo governo árabe do Sudão. Onde estão as vozes da imprensa, do público, dos professores, das igrejas e demais segmentos da população protestando contra este holocausto? Será que é porque eles são negros e pobres e não têm como pagar a alguém para escrever sobre eles nos jornais ou mostrá-los morrendo de fome, sede e tortura pela televisão?

Na verdade, a grande maioria dos “especialistas” nem sabe apontar no mapa o local onde fica Darfur. O desconhecimento da história e da geografia de outros povos é grande, e para adquirir este saber é preciso tirar muitas das horas dedicadas à diversão, e ter a humildade de sentar-se e estudar com o intuito de aprender, comparando diferentes versões sobre os fatos, acompanhando-os ao longo do tempo e do espaço, i.e. estudando História e Geografia. Infelizmente, é muito mais fácil assumir uma versão determinista, marxista-ingênua, onde não existem pessoas, só estruturas. Quando, alguém que aprendeu tal visão, que é amplamente difundida no Brasil, se depara com retratos das crianças mortas ou feridas, explode a contradição de uma história que não tem pessoas e para amenizá-la, devido à necessidade humana de criar uma ordem mental, ao invés de reflexão inicia-se apenas a procura a um bode expiatório.

Pensar cansa, e Israel e os Estados Unidos estão ai para isto mesmo, são “imperialistas sanguinários”, e [os brasileiros] se esquecem do que o Brasil fez com o Paraguai! Nosso ensino de história e geografia “crítica” […] não induz à leitura e à exploração intelectual, tudo já está explicado: rico manda e pobre obedece, rico mora em lugar bom e pobre mora em lugar ruim, palestino é bom e judeu é ruim, pronto, não há mais o que aprender. Como os brasileiros não vêm as vítimas dos árabes em Darfur, nem as crianças israelenses mortas e feridas pelo Hamas, acham que só os palestinos sofrem, e que este sofrimento é causado pelo “Pequeno Satã”, i.e. Israel, a mando do “Grande Satã”, i.e. os EUA.

Nada se sabe sobre o Oriente Médio, a cultura árabe, e a diferença entre o islã (religião e cultura) e o islamismo (fundamentalismo violento)! São pouquíssimos os que podem explicar os problemas atuais do Oriente Médio, os resultado de séculos de decadência do Império Otomano, das guerras entre os diferentes povos que compõem o islã, do surgimento do Humanismo e da ciência na Europa, que assim tornou-se dominante, impondo sua política e modo de pensar entre as elites dos países que influenciou, assim como no passado os islâmicos dominaram a Península Ibérica e a controlaram. Quantos sabem algo sobre a cultura árabe além de quibe e dança-do-ventre? Quem pode dizer o porque de alguém como o bin Laden dizer que um dia o islã dominará o mundo devido ao fato de que os ocidentais não querem morrer, mas que para os islâmicos a morte é uma alegria? Quantos sabem o que é o após-morte no islã além do homem receber 72 virgens? Quem sabe dizer o que acontece com as mulheres? O que acontece com uma criança que morre em uma batalha ou ataque contra o islã?

Quem pode dizer o porque de alguém como o bin Laden dizer que um dia o islã dominará o mundo devido ao fato de que os ocidentais não querem morrer, mas que para os islâmicos a morte é uma alegria?

Para começar, no Ocidente o conceito de “infância” e “criança” é muito recente, surgido mais ou menos a partir do século 18. Até então não existiam crianças, existiam apenas seres que ainda não haviam atingido seu potencial humano total. Não havia roupas para crianças, não havia horário para brincar, e tão logo possível elas eram colocadas para trabalhar com os pais. Só há cerca de dois séculos a idéia começou a ser desenvolvida, e com ela o pensar de que havia um tempo na vida das pessoas em que elas podiam não se preocupar em trabalhar, que deviam ser bem tratadas e protegidas de problemas pelos pais.

Mais recentemente ainda, na década de 1940, surgiu o conceito de adolescente, uma pessoa entre a infância e a vida adulta, a quem é permitido fazer todas as loucuras antes de entrar no mundo “adulto” e se enquadrar. A morte de uma criança é tida por nós como o horror mais profundo, mas isto não acontece em outras culturas. Para nós no Brasil, uma criança morta é a dor mais forte que se pode ter, causa repulsa a todos, desejo de vingança contra quem causou o evento. Mas, como disse bin Laden, nós ocidentais amamos a vida e não queremos perder nossos filhos, mas eles, os islamistas, em suas próprias palavras, “amam a morte” e não só buscam por ela como também enviam seus filhos a seu encontro.

O que será a causa desta diferença tão profunda nas nossas percepções sobre o que seja a “morte”? Os islamistas sabem a diferença, e a usam para nos manipular. Nós, em nossa ignorância sobre outras culturas, sobre a história, aceitamos o que nos apresentam como “morte de crianças” árabes: os filmes e retratos, muitas vezes encenados (já tive a oportunidade de ver montagens de protestos palestinos por cinegrafistas europeus em Jerusalém), de crianças sangrando ou mortas, nos chocam e nos fazem tomar uma posição visceralmente anti-Israel, sem sequer nos perguntar se também existem crianças judias mortas no conflito e cujas imagens não chegam até nós (suas imagens não são exploradas por razões religiosas, pois o judaísmo proíbe a exposição do corpo de um morto até para a própria família). A morte para o Ocidente é o fim, um possível reencontro com seus mortos só ocorrerá daqui há milênios, e talvez nem aconteça em carne e osso. Quem é que quer morrer?

No entanto, para o Hamas e demais grupos islamistas qualquer pessoa (não existe o conceito de criança como o conhecemos) morta por não-islâmicos em guerra contra eles é um “mártir”, um Shahid, e um mártir pelo islã tem uma enorme, imediata e palpável recompensa, não só para si mas também para seus familiares e amigos. O Shahid vai para um paraíso mais elevado que os demais, onde pode usufruir de tudo que a ele foi negado em vida — bebidas, comidas, mulheres à disposição —mas, mais ainda, o mártir pode ESCOLHER as 71 pessoas que, em carne e osso, irão passar a eternidade a seu lado, usufruindo de todas as benesses do mártir, independentemente do que elas tenham feito durante suas vidas.

Um Shahid na família é uma garantia de salvação, de melhoria de vida, e se este mártir é uma criança os pais têm a certeza de que ela estará em um mundo muito melhor e que em breve estarão reunidos usufruindo de muitos mais benefícios que poderiam ter em vida. Vejam bem que estou falando dos islamistas, os fundamentalistas para quem a morte é a verdadeira vida, pois certamente existem islâmicos moderados que não querem perder seus filhos. De qualquer modo, o paraíso do mártir é um local concreto, um território repleto de prazeres onde se reunem familiares e amigos do/a Shahid/a em seus corpos originais para gozar a alegria e abundância por toda a eternidade. A morte de uma criança neste contexto é muito diferente da morte de uma criança para uma família e sociedade que não percebem assim a vida após a morte.

Que ninguém se engane, o Hamas não luta por liberdade ou para construir uma nação, os membros do Hamas, como os demais islamistas, lutam para um mundo onde o islã seja a religião dominante, onde a lei da Sha’aria é a lei do estado, permitindo amputações, apedrejamento, enterramento de pessoas vivas e crucificações.

Que ninguém se engane, o Hamas não luta por liberdade ou para construir uma nação, os membros do Hamas, como os demais islamistas, lutam para um mundo onde o islã seja a religião dominante, onde as demais religiões serão subjugados e terão que pagar tributo para viver, onde a lei da Sha’aria é a lei do estado, permitindo amputações, apedrejamento, enterramento de pessoas vivas e crucificações não só de criminosos de vários tipos, mas também de mulheres de quem se DESCONFIE de infidelidade, de uma moça que traiu/pode ter traído/poderia ter a intenção de trair a honra da família, de homossexuais e também de quem queira seguir outra religião ou religião nenhuma. Recentemente o parlamento do Hamas aprovou todas estas punições na Faixa de Gaza.

Se há culpados pelo sofrimentos dos palestinos são os membros do Hamas e demais grupos fundamentalistas. Não é culpa de Israel, que após anos de bombardeios diários do Hamas contra sua população civil, resolveu tomar uma atitude e acabar com as provocações. Os palestinos que vivem na Cisjordânia (Yesha), sob a liderança da Autoridade Palestina não estão se unindo ao Hamas, querem distância deles, não porque a Autoridade seja muito melhor, mas pelo menos lá existe, ainda que de forma incipiente, uma separação entre o estado e a religião, onde existe a possibilidade de julgamentos que não levem a uma crucificação.

Que não se deixem enganar os brasileiros: parem de culpar Israel pela situação de Gaza, [pois] quem aceitaria que seu vizinho ficasse atirando pedras contra suas janelas? Lembrem-se também de que no islã a liderança política é a religiosa também, não existe lei civil, existe apenas a Shaaria; e que o islã é uma religião proselitista que busca ampliar seu espaço para criar o Dar al-Islam, o Mundo do Islã, através da destruição do Dar al-Harb, o Mundo da Guerra, que é o mundo onde vivem os brasileiros. Ai, então… adeus […] à alegria desinibida do povo brasileiro. (Sonia Bloomfield –http://www.Beth-Shalom.com.br)

Sonia Bloomfield, PhD, é professora da Universidade de Brasília.

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