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Uma jovem Yazidi relata os estupros infernais cometidos pelo Estado Islâmico

Meninas Yazidis  foram “vendidas” por alguns maços de cigarros.

Citações de “Birvan” para Discussão sobre Shabaab (A Palavra para a Juventude), programa apresentado por Jaafar Abdul, 22 de março de 2016.

  • “Eles podiam vir e pegar qualquer garota sem pedir a opinião dela; se ela se recusava, eles tinham o direito de matá-la ali mesmo”
  • “Quem entrava no quarto e encontrava alguma do seu gosto poderia dizer ‘vamos lá’.”
  • “Havia 48 milicianos do Estado islâmico na casa e fomos duas meninas, duas meninas yazidis. “
  • “Que hospital? Bateram-me ainda mais mais!
  • “Eu não me importava de ser capturada. Fugir ou morrer era melhor do que ficar lá “.

Uma entrevista recente, realizada em árabe com uma jovem Yazidi, escrava sexual do Estado islâmico, foi transmitida em 22 de março de 2016 DW. A menina foi o convidada da “Discussão Shabaab” (A Palavra para a Juventude) liderada por Abdul Jaafar.

A menina que falou usando o pseudônimo Birvan, foi capturado com a idade de 15 anos e sofreu muitos meses de escravidão antes de conseguir escapar. Ela tem 17 anos hoje. Tudo o que se segue é uma síntese de sua entrevista na televisão:

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Iraquiana sequestrada pelo Estado Islâmico: ‘Fui vítima de jihad sexual’

Quando integrantes do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI) invadiram a aldeia de Nadia Murad no Iraque, mataram todos os homens, incluindo seis de seus irmãos.

Nadia é da minoria étnica e religiosa yazidi, considerada “infiel” pelos extremistas do EI.

Ela e centenas de outras mulheres yazidis foram sequestradas, vendidas e passadas de mão em mão por homens que as estupraram em grupo. Foram vítimas do que o EI chama de “jihad sexual”.

Nadia conseguiu fugir, mas acredita-se que milhares de mulheres continuem presas.

Nadia Murad está em Londres em campanha para chamar a atenção para seu povo.

O ataque

Em 3 de agosto de 2014, o EI atacou os yazidis em Sinjar, região no norte do Iraque próxima a uma montanha de mesmo nome. Antes disso haviam atacado locais como Tal Afar, Mosul e outras comunidades xiitas e cristãs, forçando a saída dos moradores.

“A vida em nosso vilarejo era muito feliz, muito simples. Como em outros vilarejos, as pessoas não viviam em palácios. Nossas casas eram simples, de barro, mas levávamos uma vida feliz, sem problemas. Não incomodávamos os outros e tínhamos boas relações com todos”, contou Nadia ao programa HARDtalk da BBC.

Nesse dia, diz ela, 3 mil homens, idosos, crianças e deficientes foram massacrados pelo EI.

Alguns conseguiram fugir e se refugiar no monte Sinjar, mas a aldeia estava longe da montanha e o EI cercou as saídas.

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Image captionPerseguidos pelo EI, os yazidis reverenciam a Bíblia e o Alcorão, mas grande parte de sua tradição é oral

“Rodearam a aldeia por alguns dias mas não entraram. Tentamos pedir ajuda por telefone e outros meios. Sabíamos que algo horrível iria acontecer. Mas a ajuda não chegou, nem do Iraque nem de outras partes.”

Depois de alguns dias, o EI encurralou os moradores na escola da aldeia e ali mantiveram homens, mulheres e crianças.

“Deram-nos duas opções: a conversão ao Islã ou a morte”, disse Nadia.

Assassinatos, sequestros e estupros

Logo separaram os homens, cerca de 700. Levaram todos para fora da aldeia e começaram a baleá-los. Nove irmãos de Nadia estavam entre eles.

Seis dos irmãos de Nadia morreram – três ficaram feridos mas escaparam.

“Da janela da escola podíamos ver os homens sendo baleados. Não vi meus irmãos sendo atingidos. Até hoje não pude voltar à aldeia nem ao local da matança. Não há notícias de nenhum dos homens.”

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Image captionMulheres yazidis são alvo da chamada ‘jihad sexual’ do Estado Islâmico.

Segundo Nadia, meninas acima de nove anos e meninos acima de quatro anos foram levados a campos de treinamento. “Depois levaram umas 80 mulheres, todas acima de 45 anos, incluindo minha mãe. Uns diziam que haviam sido mortas, outros que não. Mas quando parte de Sinjar foi liberada encontrou-se uma vala comum com seus corpos.”

Ao todo, 18 membros da família de Nadia morreram ou estão desaparecidos.

Nadia foi levada com outras mulheres. Havia cerca de 150 meninas no grupo, incluindo três sobrinhas dela.

Elas foram divididas em grupos e levadas em ônibus até Mosul.

“No caminho eles tocavam nossos seios e esfregavam as barbas em nossos rostos. Não sabíamos se iam nos matar nem o que fariam conosco. Percebemos que nada de bom iria ocorrer porque já tinham matado os homens e as mulheres mais velhas, e sequestrado os meninos.”

Ao chegar ao quartel-general do EI em Mosul, encontraram muitas jovens, mulheres e meninas, todas yazidis. Tinham sido sequestradas em outras aldeias no dia anterior.

A cada hora, homens do EI chegavam e escolhiam algumas meninas. Elas eram levadas, estupradas e devolvidas.

Nadia percebeu que esse também seria seu destino.

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Image captionApós fugir com ajuda de uma família muçulmana sem conexão com o EI, Nadia viaja o mundo chamando a atenção para o drama do povo yazidi.

Sem compaixão

No dia seguinte, um grupo de militantes do EI chegou. Cada um escolheu uma menina, algumas entre 10 e 12 anos.

“As meninas resistiram, mas foram forçadas a ir. As mais jovens se agarravam às mais velhas. Uma delas tinha a mesma idade de minhas sobrinhas, chorava e se prendia a mim.”

Quando chegou sua vez, Nadia foi selecionada por um homem bem gordo que a levou a outro andar. Um outro militante passou e o convenceu a levá-la – mas isso não mudou as coisas.

“O homem mais magro me levou até sua casa, tinha guarda-costas. Estuprou-me, e foi muito doloroso. Nesse momento percebi que teria sofrido do mesmo jeito, não importa com quem.”

Nenhum dos homens mostrou clemência. Todos estupraram as mulheres de forma violenta. “As coisas que fizeram foram horríveis. Nunca imaginamos que coisas tão terríveis aconteceriam conosco.”

Os extremistas podiam manter as mulheres por mais de uma semana, porém frequentemente elas eram vendidas após um dia ou até uma hora.

Algumas mulheres dos irmãos de Nadia estavam grávidas quando foram capturadas e deram à luz no cárcere.

Elas também foram levadas ao tribunal islâmico do EI e forçadas a se converter.

Nadia passou três meses com o homem que a levou. Durante esse período conseguiu conversar com alguns sequestradores.

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Image captionEmbora algumas áreas de Sinjar tenham sido liberadas, ainda há valas comuns por descobrir

“Perguntei por que faziam aquilo conosco, por que haviam matado nossos homens, por que nos estupraram violentamente. Disseram-me que ‘os yazidis são infiéis, não são um povo das Escrituras, são um espólio de guerra e merecem ser destruídos'”.

Ainda que a maior parte desses militantes fossem casados, as famílias – inclusive as mulheres – pareciam aceitar o que faziam, disse Nadia.

Em uma ocasião, ela pediu autorização para fazer uma chamada telefônica porque queria escutar uma voz familiar.

Disseram que poderia ligar para seu sobrinho por um minuto, mas com uma condição: “Que primeiro eu lambesse o dedo do pé que um homem havia coberto com mel.”

Muitas jovens na mesma situação se suicidaram, disse Nadia, mas essa não foi uma opção para ela.

“Acho que todos devemos aceitar o que Deus nos deu, sem importar se é pobre ou sofreu uma injustiça, todos devemos suportar.”

Ela tampouco questionou sua fé. “Deus estava cada minuto em minha mente, ainda quando estava sendo estuprada.”

Nadia tentou fugir pela primeira vez por uma janela, mas um guarda a capturou imediatamente e a colocou em um quarto.

Sob as regras do EI, disse Nadia, uma mulher se converte em espólio de guerra caso seja capturada tentando escapar. Colocam-na em uma cela onde foi estuprada por todos os homens do complexo.

“Fui estuprada em grupo. Chamam isso de jihad sexual.”

Fuga

Após esse episódio, Nadia não pensou em fugir de novo, mas o último homem com quem viveu em Mosul decidiu vendê-la e foi arranjar roupas para ela.

Quando ordenou que ela tomasse banho e se preparasse para a venda, ela aproveitou para escapar.

“Bati na porta de uma casa onde vivia uma família muçulmana sem conexão com o EI e pedi ajuda. Disse que meu irmão daria o que eles quisessem em troca.”

Por sorte a família não apoiava o EI e a apoiou inteiramente.

“Deram-me um véu negro, um documento de identidade islâmico e me levaram até a fronteira.”

Agora livre, Nadia Murad se tornou uma ativista que viaja o mundo fazendo campanha para chamar atenção para a tragédia dos yazidis.

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Image captionSamantha Power (à esq.), embaixadora dos EUA na ONU, apresenta Nadia a integrantes do Conselho de Segurança

Ela já visitou os EUA, Reino Unido, Europa e países árabes, falou na ONU, conheceu parlamentares e líderes mundiais.

A resposta, contudo, tem sido lenta.

“Todos sabem o que é o Estado Islâmico. Escutam-me com atenção mas não prometem nada”, afirma. “Dizem que analisarão o caso e verão o que é possível fazer, mas até agora nada aconteceu”, afirmou.

Após um ano e meio do ataque, ainda há mulheres e meninas sequestradas.

A região ainda não foi completamente liberada. Nas regiões em que o EI foi expulso, há valas comuns ainda não descobertas.

Nadia espera voltar a seu vilarejo para ver o que sobrou e saber do destino dos desaparecidos.

“Juro por Deus que todos estamos muito cansados. Já se passou um ano e meio desde que isso nos aconteceu. Sentimos que estamos abandonados pelo mundo”, disse Nadia, às lágrimas.

“Mataram minha mãe. Meu pai morreu faz tempo. Meu irmão mais velho era como um pai para mim, mas também foi morto. Peço ao mundo que faça algo por nós.”

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160301_jihad_sexual_tg

“Falta quase tudo em Aleppo”

O sírio Osama el-Ezz é cirurgião e trabalha para a Sociedade Médica Sírio-Americana (Sams). Regularmente, ele viaja da Turquia para sua cidade natal, Aleppo, levando ajuda médica para as pessoas. Atualmente, ele também se encontra lá – na parte da cidade que passou a ser controlada pelos rebeldes desde meados de 2012.

Desde que a Rússia começou a ajudar o ditador Bashar al-Assad, executando ataques aéreos, a luta por Aleppo, segunda maior cidade da Síria, é maior do que nunca.

“A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver”, conta Ezz à DW, em entrevista realizada por meio de curtas mensagens de voz, já que não foi possível a comunicação telefônica.

Deutsche Welle: Como está a situação na parte de Aleppo em que você se encontra agora?

Osama el-Ezz: A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver. As pessoas não têm energia elétrica já há mais de seis meses. E o abastecimento hidráulico também é precário. Mal sai água das nossas torneiras, para não falar da água potável. As pessoas têm pouco dinheiro. E perderam as esperanças.

Poucos estão empregados, e são muitos os parentes feridos que precisam de cuidados. Além disso, os pais de muitas famílias – e, portanto, os chefes entre os familiares – estão mortos. Eles perderam a vida lutando ou foram vítimas de bombardeios, muitos homens também foram sequestrados pelo regime.

As pessoas não tentam fugir de Aleppo?

Nem todos têm a possibilidade. Há pouca gasolina, e poucos têm um carro. Mas, sobretudo: as tropas do governo tomaram o controle de vias importantes, e é difícil conseguir passar pelos bloqueios de rua. Além disso, há o risco de ser atingido por bombas no caminho. Mas há pessoas que fogem.

Como a situação em Aleppo mudou desde os ataques do Exército russo?

Médico Osama el-Ezz, da SAMS

Diariamente, sofremos ataques violentos por vários tipos de bombas – e com a intervenção russa, tudo ficou ainda pior. As tropas do governo sempre tiveram como alvos locais com grande número de pessoas – como praças, escolas, mesquitas. Mas isso aumentou desde então e o número de vítimas cresceu maciçamente.

Nós, médicos, também vemos uma mudança nas lesões dos combatentes ou vítimas, já que os russos, aparentemente, utilizam outras armas e bombas. Infelizmente, também não existe nenhum tipo de alerta, esses ataques acontecem simplesmente. E ninguém pode se esconder tão rapidamente – especialmente porque nem todas as casas possuem porão.

Como isso afeta as pessoas?

Quase ninguém se atreve mais a sair de casa. Eles estão traumatizados, precisam de ajuda psicológica e psiquiátrica. As crianças acordam aos gritos durante a noite, grávidas perdem seus bebês. Os homens também sofrem muito com essa situação. Eles carregam um fardo pesado: de um lado, tentam ganhar dinheiro. No entanto, são eles que veem toda a destruição e os mortos na cidade.

E como os cuidados médicos estão funcionando?

Há poucos medicamentos e pouquíssimos aparelhos medicinais. Mas o que nos causa problemas em especial é que nós nem sempre podemos tratar adequadamente as doenças graves, como casos de câncer.

O que as pessoas lhe contam, do que elas têm medo?

Elas estão muito preocupadas que as tropas do governo assumam o controle das entradas da cidade e deixem que as pessoas morram de fome. Sabemos que Assad não poupa ninguém. Esse é um grande cenário de horror para as pessoas nesta parte de Aleppo.

http://www.dw.com/pt/falta-quase-tudo-em-aleppo/a-19055735

Mulher Yazidi implora ao Conselho de Segurança da ONU para acabar com Estado Islâmico

Uma jovem Yazidi defendeu na quarta-feira no Conselho de Segurança das Nações Unidas o fim do Estado islâmico depois de descrever a tortura e estupro que ela sofreu nas mãos dos militantes, que a raptou como “despojo de guerra” sendo mantida  presa por três meses.

“O estupro foi usado para destruir as mulheres e meninas e garantir que estas mulheres nunca pudessem levar uma vida normal novamente,” disse Nadia Murad Basee Taha, 21 anos, na primeira reunião do conselho de 15 membros sobre o tráfico humano.

“O Estado Islâmico traficava mulheres yazidis, disse ela acerca do grupo extremista que apreendeu faixas de território no Iraque e na Síria.”

Taha disse que ela foi seqüestrada em agosto do ano passado de sua aldeia no Iraque e levada de ônibus a um edifício no reduto do Estado Islâmico em Mosul, onde milhares de mulheres e meninas yazidis foram trocadas por militantes como presentes.

Poucos dias depois, ela foi levada por um homem. “Ele forçou a me vestir e colocar minha maquiagem e, em seguida, naquela noite terrível, que ele fez isso, me forçou a servir para parte de sua facção militar, ele me humilhou todos os dias.”

Ela tentou fugir, mas foi parada por um guarda.

“Naquela noite, ele me bateu. Ele me pediu para tirar a roupa. Ele me colocou em um quarto com os guardas e depois passaram a cometer seu crime até que eu desmaiei”, disse ela.”Eu imploro a você, para se livrar de Daesh (Estado Islâmico) completamente.”

Taha disse que vários de seus irmãos foram mortos por militantes muçulmanos do Estado Islâmico, mas ela conseguiu escapar e agora está morando na Alemanha. Visivelmente emocionada depois de contar a sua história, os membros do Conselho de Segurança da ONU aplaudiram sua coragem.

A ONU disse que o Estado Islâmico pode ter cometido genocídio na tentativa de acabar com a minoria Yazidi e exortou o Conselho de Segurança da ONU a submeter a questão ao Tribunal Penal Internacional para a acusação.

O conselho disse em um comunicado nesta quarta-feira que deplorou o tráfico de pessoas feito pelo Estado Islâmico e outros grupos, como o Boko Haram. Ele advertiu que “certos atos associados com o tráfico de pessoas no contexto de um conflito armado podem constituir crimes de guerra.”

Militantes do Estado Islâmico consideram os Yazidis adoradores do diabo. A fé Yazidi tem elementos do cristianismo, zoroastrismo e islamismo. A maioria da população Yazidi, composta de cerca de meio milhão de pessoas, permanece em campos de deslocados no interior da entidade autônoma no norte do Iraque conhecida como Curdistão.

Dos aproximadamente 5.000 homens e mulheres yazidis capturados pelos militantes no verão de 2014, cerca de 2.000 conseguiram escapar ou foram contrabandeados para fora do califado do autoproclamado Estado Islâmico, dizem os ativistas. O restante permanece em cativeiro.

(Reportagem de Michelle Nichols, Edição de Tom Brown)

http://uk.reuters.com/article/uk-islamic-state-un-idUKKBN0TZ35B20151217

‘A tática do Estado Islâmico para me recrutar – e como eu resisti’

Como o grupo extremista muçulmano autodenominado “Estado Islâmico” radicaliza jovens muçulmanos pela internet?

 A experiência de um adolescente britânico, que alega ter rechaçado as investidas do “EI”, revela táticas similares às de grupos que tentam disseminar a anorexia e a autoflagelação.

Sajid abriu uma conta falsa no Twitter cerca de um mês após seu irmão Arshad desaparecer. Arshad nunca tinha exibido sinais de radicalização ou mesmo interesse específico na guerra civil da Síria. Mas as evidências estavam lá: a cama do irmão estava vazia e seu passaporte tinha desaparecido.

E seu histórico de buscas na internet mostrava uma grande quantidade de conteúdo relacionado ao grupo radical.

Mais tarde, Sajid foi contactado por seu irmão – que, a essa altura, já estava na Síria e contou que, assim como centenas de outros jovens britânicos, tinha decidido se juntar à guerrilha do “EI”.

Leia mais: Famílias britânicas são obrigadas a usar rastreador para evitar que se unam ao ‘EI’

Mas Sajid queria saber mais. Usando um nome falso árabe, que pegou de um programa de TV, ele começou a fazer buscas no Twitter usando os termos Isis (a sigla utilizada em inglês pelo “EI”) e Síria, além de seguir contas associadas ao grupo.

Revanche

Imediatamente, ele começou a ser seguido por um “fã” dos extremistas. Trocaram algumas mensagens antes de Sajid sair da rede social para cuidar de sua lição de casa da escola.

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Image captionRecrutamento de militantes é carregado de retórica religiosa

Duas horas mais tarde, quando voltou ao Twitter, Sajid já acumulava 5 mil seguidores. Depois de mais alguns bate-papos, ele começou a ter contato mais regular com seis usuários.

Alguns estavam na Síria e outros se diziam adeptos do “EI” no Ocidente. Apesar de Sajid dizer que condenava as ações do irmão, seus interlocutores se mostravam extremamente compreensivos.

Leia mais: O país europeu onde nasceu o jihadismo moderno

“Nenhum deles me pediu para ir para a Síria ou mesmo apoiar o ‘EI’. Foi algo chocante, pois esperava que me pressionassem. Eu ainda não sei por que não me pediram apoio”, contou Sajid à BBC, em uma conversa pela internet.

A experiência do jovem contrasta com o que se supunha sobre as atividades de recrutamento do ‘EI’: a de que seus agentes estariam online à espreita para assediar jovens inocentes, ao estilo de pedófilos ou fraudadores.

O cenário descrito por Sajid tem menos a ver manipulações sinistras e mais com comunidades que celebram a anorexia, a autoflagelação ou as teorias da conspiração.

Esses grupos agem atraindo pessoas com interesses comuns e que estimulam umas às outras a compartilhar fotos e vídeos de suas obsessões. Agindo assim, os comportamentos que os integrantes celebram acabam normalizados pela ação do grupo.

TwitterImage copyrightTwitter
Image captionO uso de mídias sociais é uma das principais armas do grupo

Ainda assim, Sajid foi alvo de um fluxo constante de propaganda por meio de redes abertas e mensagens privadas. Grande parte das informações era relacionada à perseguição de muçulmanos sunitas pela forças de segurança no Iraque (país de maioria xiita) e à vingança dos militantes do “EI”.

Para Sajid, pareceu que o argumento-chave dos contatos era a ideia de retribuição contra atrocidades cometidas contra sunitas.

Contato

“Depois de assistir a alguns vídeos e ler sobre crimes cometidos por xiitas, fiquei com raiva e até gostei de uma execução de um policial iraquiano”, conta.

Leia mais: EUA gastam US$ 9 milhões ao dia para combater ‘Estado Islâmico’

Foi um momento crucial para Sajid. Ele estava sendo atiçado pelo “EI”. E estava sendo recrutado como seu irmão.

“Fiquei chocado quando questionei minha consciência. Concluí que não apoiava as ações de modo algum. E parei de assistir aos vídeos. Cheguei a pensar se meu irmão não estava certo. Mas acho que se trata de uma decisão pessoal.”

BBC
Image captionMais de 700 britânicos teriam se juntado a causas jihadistas no Oriente Médio

O adolescente disse ter refletido sobre as consequências de um possível envolvimento com os radicais:

“Vi o impacto que a partida do meu irmão causou em nossa família. Meus irmãos menores se recusavam a comer e não conseguiam dormir. Não creio que meu irmão tinha ideia de como suas ações estúpidas iriam afetar nossa família.”

Entre os contatos de Sajid estavam dois militantes do “EI” na Síria, que frequentemente lhe passavam informações usando o aplicativo de chat Kik. Ele progressivamente se transformou em uma espécie de fonte de consulta para assuntos ligados às atividades dos extremistas. Percebeu que poderia manter uma fachada para, na verdade, operar desestimulando outros possíveis recrutas.

“Tive que fingir apoiar o grupo e, ao mesmo tempo, dizer às pessoas para que não o seguissem. Houve um dia em que uma menina somali morando em Londres me acusou de ser um espião quando falei para ela que não se juntasse ao ‘EI’. Achei que ela fosse me denunciar. Mas depois ela me contou que tinha desistido.”

Pelo menos 700 pessoas vivendo no Reino Unido se uniram a causas jihadistas no Iraque e na Síria, segundo autoridades de segurança britânicas.

Uma delas é o irmão de Sajid – uma das pessoas que ele não conseguiu convencer a deixar a causa jihadista. Ele diz ter tentado convencê-lo, mas desistiu depois de ser ignorado pelo irmão e por temer perder o contato com ele.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150824_ei_tatica_radical_fd

Iraquiano gay relata como escapou de ser atirado de prédio pelo ‘EI’

O ‘EI’ é profissional quando o assunto é perseguir gays, caçam um a um’; em chocante relato, jovem conta que o próprio pai queria sua punição e que só escapou por ajuda da mãe.

O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico (EI) tem uma punição especial para gays – o lançamento à morte do topo de prédios altos. Taim, um estudante de Medicina de 24 anos, conta a história de como escapou desse destino numa fuga do Iraque ao Líbano.

“Na nossa sociedade (iraquiana), ser gay é igual a uma sentença de morte. Quando o ‘EI’ mata gays, muitos ficam felizes porque pensam que somos doentes.

Percebi que era gay aos 13 ou 14 anos. Também pensava que a homossexualidade era uma doença, e só queria me sentir normal. Por isso fiz terapia durante meu primeiro ano na faculdade. Meu terapeuta me aconselhou a pedir ajuda aos amigos e dizer que eu passava por um ‘período difícil’.

Minha formação é muçulmana, mas meu ex-namorado vinha de um ambiente cristão, e eu também tinha muitos amigos cristãos, com quem costumava sair. Em 2013, envolvi-me numa briga com um colega de faculdade, Omar – que depois se integrou ao ‘EI’ -, motivada por essa convivência com cristãos.

Um amigo meu disse a ele que pegasse leve porque eu enfrentava um momento duro e recebia tratamento por ser gay. Foi assim que ficaram sabendo. Acho que a intenção do meu amigo era boa, mas o que aconteceu em consequência disso arruinou minha vida.

Em novembro de 2013, Omar me atacou com dois amigos. Eu estava apenas andando para casa depois de um ótimo dia. Eles me espancaram, jogaram-me no chão e rasparam minha cabeça. Diziam: ‘Essa é só uma lição por enquanto, porque seu pai é um homem religioso. Olhe o que você faz!’. Ele queria dizer que eu só não tinha sido morto ali em respeito ao meu pai, porque venho de uma família religiosa.

Deixei a cidade por alguns dias e não apareci na universidade. Mas acabei voltando, e, em março de 2014, deixei Omar furioso de novo, desta vez por dizer que não-muçulmanos não deveriam pagar a “jizya”, uma taxa paga por não-muçulmanos a governos muçulmanos. Estava lavando as mãos no banheiro da faculdade quando ele e outros me atacaram mais uma vez.

Eles chegaram por trás, mas reconheci um deles pelo relógio verde. Era o mesmo grupo. Eles me bateram até me deixar semiconsciente. Quase não conseguia andar, e parei de ir à faculdade por um mês.

Então, no meio das provas finais, o ‘EI’ tomou o poder. Omar me ligou, pediu que me arrependesse e me juntasse a eles. Eu desliguei o telefone.

O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico (EI) tem uma punição especial para gays - o lançamento à morte do topo de prédios altos. Taim, um estudante de Medicina de 24 anos, conta a história de como escapou desse destino numa fuga do Iraque ao Líbano (Foto: BBC)O grupo extremista autodenominado Estado Islâmico (EI) tem uma punição especial para gays – o lançamento à morte do topo de prédios altos. Taim, um estudante de Medicina de 24 anos, conta a história de como escapou desse destino numa fuga do Iraque ao Líbano (Foto: BBC)

Em 4 de julho, um grupo de soldados do ‘EI’ veio até minha casa. Meu pai atendeu a porta e eles teriam dito: ‘Seu filho é um infiel e um homossexual, e nós viemos trazer a punição de Deus para ele’.

Meu pai é um homem religioso, e para minha sorte conseguiu convencê-los a voltar no dia seguinte, para que ele pudesse verificar a veracidade da acusação. Ele entrou em casa e começou a gritar. Ao final, afirmou: ‘Se essas acusações forem verdade, eu vou entregá-lo a eles, e feliz’. Eu fiquei estático, sem saber o que fazer ou dizer – muito menos me defender.

Eu estava em choque. Mas minha mãe decidiu que eu deveria deixar nossa casa imediatamente, e começou a me ajudar a conseguir um visto para sair do Iraque. Era meia-noite e ela me disse: ‘Estamos indo agora’.

Ela me levou até a casa da minha tia. No dia seguinte, reservou um voo para a Turquia e conseguiu um visto para mim. Mas eu teria que passar por Erbil (capital da região curda do Iraque), e eles não nos deixariam entrar no Curdistão. Passei duas semanas num vilarejo perto de Erbil tentando entrar, e nada. Tentei ir por Bagdá mas havia combates na estrada e o motorista se recusava a ir. Tentei sair muitas vezes, sem sucesso.

Em agosto, após semanas me escondendo, minha mãe deu um jeito de me levar a Kirkuk, dirigindo por campos e estradas de terra. De lá segui para Sulaymaniyah. Planejava ir para a Turquia, mas o primeiro voo disponível era para Beirute, e eu não precisava de visto – e aqui estou.

Se eu tivesse ficado, o ‘EI’ teria ido atrás de mim e me matado como fizeram com outros. Se não me pegassem, meus próprios parentes teriam feito o serviço. Poucos dias depois que saí, soube que meu tio – irmão do meu pai – tinha jurado limpar a honra da família.

Recentemente recebi uma mensagem anônima pelo Facebook – minha mãe acha que foi meu tio. Dizia: ‘Você está em Beirute. Vou te perseguir até no inferno’.

Tudo o que quero agora é ficar em um lugar seguro, fora de alcance do meu pai e de qualquer extremista. Quero estar seguro, ser livre e ser eu mesmo – quero me formar e começar a viver… Só quero começar a viver.

 Taim com a cabeça raspada.  (Foto: BBC)Taim com a cabeça raspada. (Foto: BBC)

Advogados de direitos humanos do Projeto de Assistência a Refugiados Iraquianos me ajudaram a obter status de refugiado e estão tentando me realocar em outro país, onde quero continuar meus estudos. Aqui vivo em um quarto do tamanho do banheiro da minha antiga casa. Estou num limbo.

Acho que vou me recuperar aos poucos, mas sempre haverá a lembrança desse período negro quando tive que literalmente correr pela minha vida. Foi muito estressante, mas consegui.

Perdi contato com a maior parte da minha família. Um mês depois que fugi, meu irmão mais novo me enviou uma mensagem no Facebook dizendo: ‘Tive que deixar a cidade. A família está despedaçada e a culpa é toda sua’.

Fiquei nervoso e não respondi. Mas senti saudades dele no Revéillon, então escrevi dizendo: ‘Não é minha culpa ter nascido assim. Eles (‘EI’) são os criminosos’. E depois disso tivemos uma longa conversa no Facebook sobre nossas infâncias.

Não falei mais com meu pai. O que ele fez foi muito doloroso. Ele é meu pai. Teria que me proteger e me defender acima de tudo. Mas quando ele disse que me entregaria ao ‘EI’, ele sabia o que fariam comigo. Ele sabia. Talvez o perdoe no futuro, mas agora não quero nem pensar nele. Quero que fique fora da minha vida.

Mas com minha mãe falo toda semana. É difícil para ela porque não há sinal de celular e ela tem que sair da cidade para conseguir sinal. Ela é a mulher mais incrível do mundo. Ela é culta e respeitosa – é brilhante. Ela me ama, e nunca discutiu minha homossexualidade quando me ajudava a fugir.

Ela estava apenas focada em me deixar em segurança. Porque é minha mãe, acho que ela sempre soube que sou gay. Mas tudo que senti dela foi o amor, um amor verdadeiro. Nunca me despedi dela porque quando consegui (fugir) já havia tido tantas tentativas frustradas que achava que iria voltar e vê-la novamente.

Tudo o que queria era um abraço dela.

Ainda tenho amigos gays, mas perdemos contato para a própria segurança deles.

No começo deste ano um dos meus melhores amigos, que ficou no Iraque, foi morto. Ele foi jogado do alto do principal prédio do governo.

Era um grande homem, uma pessoa muito gentil. Tinha 22 anos, era estudante de Medicina, muito calmo e esperto – quase um gênio. Costumava me contar sobre as últimas descobertas científicas – sempre tirava notas altas, e nunca andava sem um livro.

Nós nos conhecemos pela internet – gays iraquianos costumam frequentar comunidades online – e depois pessoalmente. Ao vivo ele era bem quieto, mas online não parava de falar. Ele compartilhava seus maiores segredos comigo. Como homens gays, todos tínhamos que ter vidas secretas.

Não sei como ele foi descoberto, porque era muito cuidadoso – talvez por meio de uma mensagem de celular ou de internet. Quando o ‘EI’ captura alguém, eles vasculham todas as mensagens.

A última vez que o vi ao vivo foi pouco antes de o ‘EI’ tomar nossa cidade, mas continuamos em contato até minha fuga.

Não consigo descrever o que senti quando vi imagens dele pela primeira vez. Aquele vídeo me persegue em pesadelos. Sinto que estou caindo do alto. Sonho que estou sendo preso e depois jogado de um edifício – o mesmo destino do meu amigo.

É devastador vê-lo ir dessa maneira brutal. Ele foi vendado, mas sei que era ele pelo porte físico e tom de pele. Parece que ele morreu imediatamente, mas um amigo me disse que não – talvez o prédio não fosse alto o suficiente. Esse amigo me disse que ele foi apedrejado até a morte.

Eu queria desabar. Não podia acreditar. Um dia ele estava vivo, ativo, vivendo sua vida.

E agora ele se foi.

Mesmo antes da chegada do ‘EI’, eu vivia em estado de medo constante. Não há leis para te proteger. Milicianos estavam matando pessoas em segredo – e ninguém dizia nada. Para eles, somos apenas um bando de criminosos sujos que precisam ser eliminados porque atraímos a ira de Deus e somos a fonte de todo o mal.

Foi muito difícil nos anos recentes. Havia milicianos e homens de segurança que – se descobrissem que alguém era gay – prendiam, estupravam e torturavam essa pessoa. Houve muitos assassinatos supervisionados pelo Exército iraquiano. É possível ver soldados em vídeos de pessoas sendo apedrejadas ou queimadas vivas.

Eu vi um vídeo em que um homem gay teve cordas amarradas no pescoço e foi arrastado pelas ruas, apedrejado e queimado. Alguns tiveram os retos preenchidos com cola e foram deixados no deserto para morrer.

Antes do ‘EI’, acho que talvez o poder da minha família tenha me protegido. Mas mesmo se o ‘EI’ desaparecesse agora, o risco seria o mesmo, agora que já fui identificado como gay.

A diferença agora é que o ‘EI’ tem apenas um método terrível de matar pessoas – jogando essas pessoas de prédios e apedrejando-as caso não morreram na queda. Esse era o meu destino se o ‘EI’ tivesse me pegado.

O que também mudou é que a mídia está atenta às ações do ‘EI’, porque é o ‘EI’. E o ‘EI’ filma tudo, divulga o vídeo e afirma ‘Matamos essas pessoas por serem gays, e essa é a punição deles de acordo com nosso Livro Sagrado’.

O ‘EI’ é profissional quando o assunto é perseguir gays. Caçam um a um. E quando pegam algum, vasculham seu telefone e amigos do Facebook. Eles estão tentando identificar todo homem gay. É como uma trilha de dominó – se um cai, os outros irão cair também.

É devastador ver a reação pública aos assassinatos. Normalmente, quando o ‘EI’ divulga imagens online, as pessoas se solidarizam com as vítimas – mas apenas se não forem gays. Você deveria ver os comentários no Facebook sobre os vídeos de assassinatos. “Odiamos o ‘EI’ mas amamos quando fazem coisas assim. Deus o abençoe, ‘EI'”. “Sou contra o ‘EI’ mas sou totalmente a favor quando matam gays”. “Ótimas notícias. Isso é o mínimo que os gays merecem.” “A homossexualidade é o crime mais horrendo do mundo. Belo trabalho ‘EI’.” “A cena é horrível, mas eles merecem.” “Esses sujos merecem o ‘EI’.”

E há milhares de pessoas concordando com esses comentários cheios de ódio. É isso que perturba tanto. É dessa sociedade que eu fugi.

O Islã se opõe à homossexualidade. Meu pai me fez estudar a sharia (lei islâmica) por seis anos porque queria que fosse religioso como ele. Há um hadith (narrativas e pregações atribuídas ao profeta Maomé) que recomenda que homens gays sejam jogados de desfiladeiros, e depois que um juiz ou um califa decida se devem ser queimados ou apedrejados até a morte.

Penso que o ‘EI’ está jogando homens gays do alto de prédios porque nossa sociedade nos odeia e é uma maneira de conseguir apoio.

Eu tento não assistir aos vídeos do ‘EI’. Mas para ser sincero eu procuro os vídeos deles de martírio. Quero ver se consigo ver Omar, o homem que arruinou minha vida.

Fico muito preocupado com os gays que ainda estão lá. Tenho dezenas de amigos que não podem deixar o país porque não têm dinheiro para isso. Mas depois da morte de nosso amigo eu me despedi e bloqueei todos (em redes sociais), para a própria segurança deles.

Vim a público para honrar meu amigo que foi morto – e para todo homem gay que conheço que ainda está no Iraque. Quero que os iraquianos saibam que somos seres humanos, e não bandidos. Temos sentimentos e temos alma. Parem de nos odiar apenas porque nascemos diferentes.

Tive sorte em conseguir sair. Salvei minha alma. Mas e eles? Terão sorte suficiente para sobreviver? E, se sobreviverem, irão se recuperar do trauma da perseguição? É um desastre, e todos eles são alvos.

Taim contou sua história à repórter da BBC Caroline Hawley. Taim não é seu nome real, e Omar também não é o nome verdadeiro de seu algoz.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/07/iraquiano-gay-relata-como-escapou-de-ser-atirado-de-predio-pelo-ei.html