Arquivo da tag: #deslocados

Iraque: converter ou morrer

Cristãos foram intimados a abandonar o cristianismo para seguir o islã: “Era isso ou a morte, os anúncios eram bem claros; preferi deixar minha casa a mentir sobre minha fé”

Iraq_0260009932.jpg

Segundo estatísticas atuais, metade dos cristãos que restaram no Iraque (cerca de 250 mil) estão vivendo deslocados. Um deles é Amer*, que nasceu e viveu em Mossul antes da invasão do Estado Islâmico (EI). “Antes mesmo da chegada dos jihadistas, eu já havia presenciado grandes mudanças em minha cidade. A simples presença de um cristão passou a ser algo inaceitável para a maioria dos muçulmanos que estavam adotando uma linha religiosa extremista”, conta ele.

Amer que sempre amou música, trabalhou com venda instrumentos musicais desde sua juventude. “Até a música em si era algo mais aceito pela comunidade, mas com o passar do tempo, a atmosfera foi se tornando sombria e não havia mais espaço para melodias. Não era a aparência da cidade que estava mudando, mas os corações das pessoas”, disse.

Segundo ele, não há como saber o que fez as pessoas aceitarem com simpatia a presença dos muçulmanos extremistas naquela cidade, mas o efeito sobre os cristãos foi algo bastante claro de se ver. “Passamos a ser tratados como estranhos e como cidadãos que não pertenciam mais a Mossul. Logo, líderes da igreja começaram a ser sequestrados e até mortos. Eu mesmo vi muitos irmãos sendo ameaçados de morte caso não retornassem ao islã. A pressão foi crescendo e muitos decidiram partir, até que eles passaram a proibir a venda de nossas próprias casas”, revela. Quando Amer decidiu ficar em Mossul, ele já estava casado e tinha quatro filhos, dois meninos e duas meninas. Embora o ramo musical estivesse em queda, ele abriu uma pequena loja, onde restaurava pianos e outros instrumentos para aqueles que ainda usavam.

Converter ou morrer
Em junho de 2014, enquanto sua esposa e filhos estavam fora da cidade, durante as férias de verão, a pressão sobre os cristãos chegou a um clímax. O EI assumiu o controle de Mossul, deixando pouco espaço para a existência de cristãos. “Minha loja estava numa área perigosa, então decidi levar os instrumentos para minha casa e trabalhar com mais segurança”, conta Amer que, na mesma época, teve a casa marcada com um N de nasrani (nazareno em árabe) ou simplesmente “cristão”. Isso espantou sua clientela.

Amer não estava mais seguro e não tinha trabalho suficiente para o sustento da família. As regras islâmicas foram restabelecidas e anúncios foram pregados em toda parte, chamando os cristãos para se converterem ao islã. “A Jizya (imposto islâmico) passou a ser cobrada como um sinal de submissão. Era isso ou a morte, os anúncios eram bem claros. Mas eu não acredito no islã, por isso, preferi deixar minha casa a mentir sobre minha fé”, afirmou.

Esperança e recomeço
O músico conta que teve medo, mas o fato de sua família já estar fora de casa era um alívio. “Minha esposa e meus filhos estavam seguros. Só tive tempo de separar meus documentos pessoais, algum dinheiro e o celular. Entrei no carro e me arrisquei por uma estrada acidentada, não vigiada por eles, e consegui chegar no Curdistão”, conta.

Atualmente, Amer vive com sua família na casa de seu sogro, que também fugiu de Mossul há alguns anos. A situação dele é melhor que a de muitos outros cristãos que tiveram de fugir. Apesar de dormirem em um quarto apertado, eles nunca tiveram que viver em uma tenda com a maioria dos deslocados. “Ouvi dizer que os soldados usam minha casa como uma espécie de hotel. Eles também ficaram com meus instrumentos, mas não tiraram de mim a paixão pela música. Estou reiniciando uma pequena loja aqui em Dohuk, com um pequeno empréstimo que fiz”, acrescenta.

“O futuro é incerto, ainda é difícil encontrar uma luz nessa escuridão. Para mim, paz e democracia é viver em paz com todos os demais. Infelizmente, nem todos pensam assim, eles acham que democracia é se livrar das pessoas que são diferentes”, reflete. Histórias e posicionamentos como o de Amer não são exceções. Milhares de cristãos trilham o mesmo caminho e têm os mesmos sentimentos. Eles descrevem o futuro como algo “sombrio”, mas afirmam que a esperança em Deus ainda brilha dentro deles, apesar de tudo.

* Nome alterado por motivos de segurança.

https://www.portasabertas.org.br/noticias/2016/10/converter-ou-morrer

Mundo tem 50 milhões de crianças ‘deslocadas’, alerta Unicef

28 milhões de crianças foram expulsas de suas casas por conflitos.
Outras 20 milhões saíram de casa devido à pobreza ou diante da violência.

Ao menos 50 milhões de crianças vivem “deslocadas” no mundo após abandonarem seus lares em consequência de guerras, violência e perseguições, alerta nesta quarta-feira (7) o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

No final de 2015, ao menos 31 milhões de crianças viviam refugiadas no exterior e 17 milhões estavam deslocadas em seus próprios países.

“As imagens indeléveis das crianças vítimas – o pequeno corpo de Alan Kurdi encontrado em uma praia afogado ou o olhar perdido no rosto ensanguentado de Omran Daqneesh, sentado em uma ambulância após a destruição de sua casa – sacudiram o mundo inteiro”, disse Anthony Lake, diretor-geral da Unicef.

“Cada foto, cada menina ou menino simbolizam milhões de crianças em perigo e necessitamos que a compaixão que sentimos pelas vítimas que podemos ver se traduza em uma ação a favor de todas as crianças”.

Menino foi resgatado com vida sob os escombros de edifício após bombardeio em Aleppo (Foto: Aleppo Media Center/AP)Menino foi resgatado com vida sob os escombros de edifício após bombardeio em Aleppo (Foto: Aleppo Media Center/AP)

Do total de 50 milhões de crianças “deslocadas”, uma avaliação “prudente” da Unicef indica que 28 milhões foram expulsas de suas casas por conflitos e têm uma necessidade urgente de ajuda humanitária e de acesso aos serviços essenciais.

Outras 20 milhões de crianças deixaram suas casas devido à extrema pobreza ou diante da violência de grupos criminosos.

“Muitos correm o risco de serem maltratados ou detidos, diante da falta de documentos ou de um estatuto jurídico preciso”, destaca a Unicef.

A agência da ONU observa ainda que as crianças representam uma parte desproporcional e crescente” das pessoas que buscam refúgio fora de seu país de nascimento: são quase a metade dos refugiados para um terço da população mundial.

Em 2015, em torno de 45% das crianças refugiadas sob a proteção da ONU eram originários de Síria e Afeganistão.

Diante deste panorama, a Unicef conclamou as autoridades a acabar com a detenção de crianças imigrantes e de solicitantes do status de refugiado, a não separá-los de suas famílias, a permitir seu acesso aos serviços de saúde e a promover a luta contra a xenofobia e a discriminação.

 Aylan Kurdi (Foto: Reuters)Aylan Kurdi (Foto: Reuters)

Violência do Estado Islâmico deixa mais de três milhões de deslocados no Iraque

Somente na província de Anbar, 276 mil pessoas deixaram as suas casas num período de dois meses.

GENEBRA — Mais de três milhões de pessoas foram deslocadas no Iraque devido à violência do Estado Islâmico (EI), um marco sombrio para o país em guerra, informou a ONU nesta terça-feira.

Apesar dos bombardeios da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, o grupo extremista continua avançando em território iraquiano e sírio, um ano após o início de sua ofensiva e a tomada de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque.

O comunicado divulgado nesta terça-feira pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) diz que pelo menos 3,09 milhões de pessoas foram deslocadas entre janeiro e junho em 18 províncias iraquianas.

A maioria dos deslocados é da província de Anbar. Mais de 276 mil pessoas foram deslocadas em um período de dois meses — entre abril e junho —, em meio aos combates na capital provincial de Anbar, Ramadi, tomada por extremistas.

Na Síria, o Estado Islâmico destruiu dois antigos mausoléus na cidade histórica de Palmira, considerada Patrimônio Mundial pela Unesco. Imagens divulgadas pelo grupo extremista mostram a tumba do xeque Mohammed Ben Ali antes e depois de uma explosão. Segundo o EI, o ataque ocorreu depois de o grupo anunciar que iria retirar marcos politeístas da área.

Palmira foi tomada há um mês pelo EI, despertando a preocupação de que suas ruínas fossem destruídas. No último fim de semana, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, ONG que monitora o conflito, informou que minas e explosivos haviam sido colocados na área antiga da cidade.

http://oglobo.globo.com/mundo/violencia-do-estado-islamico-deixa-mais-de-tres-milhoes-de-deslocados-no-iraque-16527845

Pedido de refúgio de sírios no Brasil aumentou 9.000% em 4 anos; grupo é o maior entre refugiados no país

Brasil é o que mais acolhe cidadãos sírios na América Latina; no total mais de 3,9 milhões de pessoas deixaram a Síria desde o início da guerra em 2011.

Devido à guerra na Síria, que já dura quatro anos, e é considerada pelo ACNUR (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados) como a “pior crise humanitária da nossa era”, o Brasil se tornou o principal destino de refugiados sírios na América Latina e viu o número de pedidos de refúgio aumentar 9.000% em quatro anos.

O Brasil abriga atualmente cerca de 1.600 cidadãos sírios reconhecidos como refugiados – o maior grupo entre as 7.600 pessoas, de mais de 80 nacionalidades diferentes, que vivem nesta condição no país.

Desde o início do conflito na Síria, 3,9 milhões de sírios procuraram refúgio em outros países e outros 8 milhões de deslocados dentro da própria Síria.

A busca de refúgio no Brasil por parte dos sírios vem crescendo regularmente desde o início do conflito em 2011. À época, apenas 16 deles viviam no país como refugiados. Mas, somente em 2014, o Brasil recebeu um número recorde de pedido de refúgio: 1.326, o que representa um aumento de quase 9.000% em relação ao início do conflito.

Esse aumento se deve, em grande medida, ao fato de que devido ao recrudescimento do conflito, o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) adotou, em outubro de 2013, uma Resolução Normativa (#17) para desburocratizar a emissão de vistos para cidadãos sírios e outros estrangeiros afetados pela guerra e dispostos a solicitar refúgio no país.

A medida aumentou o número de chegadas e impactou no perfil do refúgio no Brasil, uma vez que o Conare vem aprovando quase a totalidade das solicitações de refúgio relacionadas à guerra na Síria.

Adaptação e perspectivas

A favor do Brasil pesa para os sírios o fato de eles serem atendidos por organizações não governamentais, com o apoio do ACNUR, do Governo do Brasil e do setor privado e terem a oportunidade de reestruturar a vida após o período de adaptação.

O mesmo não ocorre nos países vizinhos à Síria. De acordo com a entidade da ONU, não há grande perspectiva para a grande maioria dos 3,9 milhões de refugiados que se encontram na Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito. Isso porque eles não vislumbram a possibilidade de voltar para casa num futuro próximo e tem poucas oportunidades de recomeçar a vida em outra parte do mundo.

Além disso, a situação dos deslocados dentro do país são preocupantes, pois “as condições de vida estão se deteriorando em uma escala alarmante”, diz a Acnur.

A vida no Brasil

Dona Yuna*, professora de formação que vive em Brasília desde 2013 teve que adquirir novas habilidades para se adaptar à realidade brasileira. Ela e o marido vendem guloseimas como “baklawa”, “ma’amul”, “namura” e “warbat bil eshta”, nos shoppings da capital.

“Morávamos em Damasco e não pretendíamos deixar nossa casa”, relembra Mohammed, marido de Yuna, um engenheiro civil que trabalhava como funcionário público. “Um dia, minha filha mais velha e eu estávamos no trânsito e ficamos presos no fogo cruzado. No outro, minha outra menina viu nosso carro explodir em frente de casa. Por dois anos ela não conseguiu dormir, acordava várias vezes para checar se as portas e janelas estavam trancadas. Ainda hoje faz isso”, conta ele.

As filhas de Yuna e Mohammed têm hoje 13, 11 e 3 anos de idade, todas dominam o idioma português e frequentam escolas públicas no bairro onde moram. “A vida aqui não é fácil, tudo é muito caro e nossos recursos praticamente acabaram. Mas estamos seguros, nos sentimos acolhidos, isso é o mais importante”, conclui Yuna.

http://www.iranews.com.br/noticias.php?codnoticia=13281/pedido-de-refugio-de-sirios-no-brasil-aumentou-9-000-em-4-anos-grupo-e-o-maior-entre-refugiados-no-pais