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“Falta quase tudo em Aleppo”

O sírio Osama el-Ezz é cirurgião e trabalha para a Sociedade Médica Sírio-Americana (Sams). Regularmente, ele viaja da Turquia para sua cidade natal, Aleppo, levando ajuda médica para as pessoas. Atualmente, ele também se encontra lá – na parte da cidade que passou a ser controlada pelos rebeldes desde meados de 2012.

Desde que a Rússia começou a ajudar o ditador Bashar al-Assad, executando ataques aéreos, a luta por Aleppo, segunda maior cidade da Síria, é maior do que nunca.

“A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver”, conta Ezz à DW, em entrevista realizada por meio de curtas mensagens de voz, já que não foi possível a comunicação telefônica.

Deutsche Welle: Como está a situação na parte de Aleppo em que você se encontra agora?

Osama el-Ezz: A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver. As pessoas não têm energia elétrica já há mais de seis meses. E o abastecimento hidráulico também é precário. Mal sai água das nossas torneiras, para não falar da água potável. As pessoas têm pouco dinheiro. E perderam as esperanças.

Poucos estão empregados, e são muitos os parentes feridos que precisam de cuidados. Além disso, os pais de muitas famílias – e, portanto, os chefes entre os familiares – estão mortos. Eles perderam a vida lutando ou foram vítimas de bombardeios, muitos homens também foram sequestrados pelo regime.

As pessoas não tentam fugir de Aleppo?

Nem todos têm a possibilidade. Há pouca gasolina, e poucos têm um carro. Mas, sobretudo: as tropas do governo tomaram o controle de vias importantes, e é difícil conseguir passar pelos bloqueios de rua. Além disso, há o risco de ser atingido por bombas no caminho. Mas há pessoas que fogem.

Como a situação em Aleppo mudou desde os ataques do Exército russo?

Médico Osama el-Ezz, da SAMS

Diariamente, sofremos ataques violentos por vários tipos de bombas – e com a intervenção russa, tudo ficou ainda pior. As tropas do governo sempre tiveram como alvos locais com grande número de pessoas – como praças, escolas, mesquitas. Mas isso aumentou desde então e o número de vítimas cresceu maciçamente.

Nós, médicos, também vemos uma mudança nas lesões dos combatentes ou vítimas, já que os russos, aparentemente, utilizam outras armas e bombas. Infelizmente, também não existe nenhum tipo de alerta, esses ataques acontecem simplesmente. E ninguém pode se esconder tão rapidamente – especialmente porque nem todas as casas possuem porão.

Como isso afeta as pessoas?

Quase ninguém se atreve mais a sair de casa. Eles estão traumatizados, precisam de ajuda psicológica e psiquiátrica. As crianças acordam aos gritos durante a noite, grávidas perdem seus bebês. Os homens também sofrem muito com essa situação. Eles carregam um fardo pesado: de um lado, tentam ganhar dinheiro. No entanto, são eles que veem toda a destruição e os mortos na cidade.

E como os cuidados médicos estão funcionando?

Há poucos medicamentos e pouquíssimos aparelhos medicinais. Mas o que nos causa problemas em especial é que nós nem sempre podemos tratar adequadamente as doenças graves, como casos de câncer.

O que as pessoas lhe contam, do que elas têm medo?

Elas estão muito preocupadas que as tropas do governo assumam o controle das entradas da cidade e deixem que as pessoas morram de fome. Sabemos que Assad não poupa ninguém. Esse é um grande cenário de horror para as pessoas nesta parte de Aleppo.

http://www.dw.com/pt/falta-quase-tudo-em-aleppo/a-19055735

Afeganistão: profissionais de MSF são mortos e hospital da organização é parcialmente destruído

É com profunda tristeza que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) confirma, até o momento, a morte de nove de seus profissionais e sete pacientes da unidade de terapia intensiva durante o bombardeio, iniciado às 2h10 deste sábado, 3 de outubro, ao hospital de MSF em Kunduz, no Afeganistão. Segundo as últimas informações, 37 pessoas foram gravemente feridas durante o bombardeio; dessas, 19 são profissionais de MSF. Alguns dos pacientes mais gravemente feridos estão sendo transferidos para estabilização em um hospital em Puli Khumri, que fica a duas horas de carro de Kunduz. Há muitos pacientes e profissionais que permanecem desaparecidos. Os números continuam aumentando na medida em que apuramos as consequências desse bombardeio terrível.

MSF condena fortemente o ato contra seu hospital em Kunduz que estava lotado de profissionais e de pacientes. MSF esclarece que todas as partes em conflito, incluindo em Cabul e em Washington, foram claramente informadas sobre a localização precisa (coordenadas geográficas) das instalações da organização – hospital, dormitório dos profissionais, escritório e uma unidade de estabilização ambulatorial em Chardara (no noroeste de Kunduz). Como MSF faz em todos os contextos de conflitos armados, essas localizações precisas foram comunicadas a todas as partes beligerantes em diversas ocasiões ao longo dos últimos meses, mais recentemente em 29 de setembro.

O bombardeio durou mais de 30 minutos após oficiais militares americanos e afegãos em Cabul e em Washington serem primeiramente informados sobre o ataque. MSF busca urgentemente esclarecer exatamente o que houve e como esse evento terrível pode ter acontecido.

“Estamos profundamente chocados com o ataque, a morte de nossos profissionais e pacientes e as duras consequências que ele infligiu sobre os cuidados de saúde em Kunduz”, diz Bart Janssens, diretor de operações de MSF. “Ainda não temos os dados finais acerca das mortes, mas nossa equipe médica está prestando primeiros-socorros e tratando os pacientes e os profissionais de MSF feridos, além de buscar os desaparecidos. Nós fazemos um apelo a todas as partes em conflito que respeitem a segurança dos profissionais e das instalações de saúde.”
Desde que confrontos eclodiram na segunda-feira, 28 de setembro, MSF tratou 394 feridos. Quando o ataque aéreo aconteceu, tínhamos 105 pacientes e seus acompanhantes no hospital, e mais de 80 profissionais nacionais e internacionais de MSF presentes.

O hospital de MSF em Kunduz é a única instalação do tipo em toda a região nordeste do Afeganistão, oferecendo cuidados de trauma vitais. Os médicos de MSF tratam todas as pessoas de acordo com suas necessidades médicas e não fazem distinção com base em etnia, religião ou filiação política.

MSF começou a atuar no Afeganistão em 1980. Em Kunduz, assim como no restante do país, o pessoal internacional trabalha junto ao nacional para garantir a melhor qualidade de tratamento. MSF apoia o Ministério da Saúde no hospital de Ahmad Sha Baba, no leste de Cabul, na maternidade de Dasht-e-Barchi, no oeste de Cabul, e no hospital de Boost, em Lashkar Gah, na província de Helmand. Em Khost, no leste do país, MSF opera um hospital-maternidade. A organização conta apenas com financiamento privado para a realização de seu trabalho no Afeganistão e não aceita recursos de nenhum governo.

Informações atualizadas em 03/10/2015, às 11h20

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